quando a indústria do entretenimento dá um tiro no próprio pé

20jan12

depois dos protestos do começo da semana, quando a internet (incluindo pesos pesados como o google) se uniu contra o sopa, o dia de ontem foi marcado pela ação do fbi que retirou do ar o megaupload, site de compartilhamento de arquivos. além disso, numa ação internacional (e até onde eu sei o fbi só pode atuar nos eua), a polícia prendeu sete integrantes da empresa, inclusive seu fundador, kevin Schmitz, sob a acusação de terem violado direitos autorais.

como era de se esperar, não tardou muito para vir o contra-ataque. na noite de ontem o grupo anonymous (responsáveis por, entre outras coisas, catapultar os protestos occupy ao redor do planeta) atacou diversos sites entre eles os da riaa (indústria da música), mpaa (indústria do cinema), gravadoras, além do departamento de justiça americano e do fbi.

mas a grande questão é entender porque apenas o megaupload foi tirado do ar enquanto outras dezenas de sites com o mesmo propósito (rapidshare, 4shared, mediafire, etc) não tiveram o mesmo tratamento. vale dizer que, depois do que aconteceu ontem, dificilmente haverá algo parecido contra eles tão cedo.

o grande argumento do fbi contra o megaupload é de que o site infringe as leis de direitos autorais, obtendo lucro através do compartilhamento de obras pelas quais ele não paga um centavo sequer aos seus proprietários (que por acaso, são as instituições citadas acima, e não os artistas em si).

não sei se você se lembra, mas no comecinho do ano surgiu um vídeo na internet onde vários artistas de peso como willi.am, p. diddy e kanye west pediam o apoio do público ao megaupload, alegando que ele ajudava e muito na divulgação da cultura em geral, especialmente de suas obras.

logo depois o universal music group mandou retirar o vídeo do youtube gerando uma enorme celeuma nas redes socias. a movimentação foi tão grande que as pessoas começaram a repostar o vídeo a todo momento até que a justiça americana voltasse atrás na decisão de banir o ditocujo. se você não viu, veja:

só que o que talvez você não saiba é que o atual ceo do megaupload é o produtor de rap kasseem dean, também conhecido como swizz beatz, que inclusive ganhou um grammy no ano passado ao lado do jay z. talvez você também não saiba que ele é casado com a alicia keys que sozinha já ganhou CATORZE grammys e já vendeu mais de 30 milhões de discos.

ou seja, é tudo gente da pesada de DENTRO da indústria. ao tirar o megaupload do ar, a indústria do entretenimento está dando um belo tiro de bazuca no próprio pé, como sempre.

a grande razão para tamanho esforço contra apenas um site específico é que o megaupload estava dando uma imensa banana para a indústria do disco e já estava em vias de lançar o megabox.com, um site que permitiria a artistas venderem suas criações diretamente aos consumidores, sem intermediários e com uma margem de lucro de cerca de 90%.

ou seja, a única razão para a existência de projetos como o sopa é que hoje a internet possibilita comunicação, construção e conhecimento fora dos grandes conglomerados.

a indústria do entretenimento e de mídia em geral (jornais, tvs, rádios) ainda não aceitou que seus modelos de negócio são arbitrários e ultrapassados e que por isso está tendo que largar o osso na marra.

ora, se o megaupload é pirataria, o youtube também é. assim como o facebook e qualquer outra mídia onde as pessoas compartilhem músicas, filmes e qualquer obra que não tenha sido criadas por elas mesmas.

sendo bem radical: aquela frase da clarice lispector que você bota todo pimpão no seu msn também é pirataria, pois você está compartilhando uma obra que não é sua sem pagar por isso. entende o absurdo da coisa? a melhor analogia até o momento vem deste texto: é como punir o carteiro por causa do conteúdo das cartas.

a questão aqui não é a abolição do conceito de direitos autorais e sim a flexibilização deste conceito. as leis precisam entender que compartilhamento não é pirataria. aliás, esta idéia de pirataria e o próprio conceito de “direito autoral”, como o conhecemos hoje, foi uma invenção para proteger os interesses da disney, né?

“monopólio é coisa do passado, véi!”

aproveito para reproduzir um trecho do comunicado oficial do pirate bay sobre o sopa. o texto original está aqui. mas também dá para lê-lo traduzido para o português aqui.

A razão pela qual eles estão sempre reclamando sobre “piratas” hoje é simples. Nós fizemos o que eles fizeram. Nós contornamos as regras que eles criaram e criamos as nossas. Nós esmagamos o seu monopólio, dando às pessoas algo mais eficiente. Nós permitimos às pessoas terem uma comunicação direta entre si, contornando o rentável intermediário, que em alguns casos tomam mais de 107% dos lucros (sim, você paga para trabalhar para eles). É tudo baseado no fato de que estamos em competição. Nós temos provado que a existência deles na sua forma atual não é mais necessária. Nós somos apenas melhor do que eles são.

E a parte engraçada é que as nossas regras são muito semelhantes às ideias dos fundadores dos EUA. Nós lutamos por liberdade de expressão. Vemos todas as pessoas como iguais. Acreditamos que o público, não a elite, deveria governar a nação. Acreditamos que as leis devem ser criadas para servir o público, e não as corporações ricas.

Rupert Murdoch estava feliz com o MySpace e não tinha problemas com a sua própria pirataria até que falhou. Agora ele está reclamando que o Google é a maior fonte de pirataria no mundo – porque ele é ciumento. Ele quer manter o seu controle mental sobre as pessoas e claramente você consegue obter uma visão mais honesta das coisas na Wikipedia e no Google do que na Fox News.

Alguns fatos (anos, datas) provavelmente estão errados neste comunicado à imprensa. A razão é que não podemos obter estas informações quando a Wikipedia está fora do ar. Por causa da pressão dos nossos decadentes concorrentes. Pedimos desculpas por isso.

por mais que se questionem os métodos adotados por grupos como o wikileaks e o anonymous (e eles são bem questionáveis) hoje em dia é inadmissível ser cínico e fingir que nada está acontecendo.

o que ocorre hoje certamente terá consequências na cultura e no modo de vida das pessoas nos próximos dez, quinze anos (talvez até menos dada a velocidade do mundo de hoje), assim como os desdobramentos do napster e a bolha da internet pavimentaram o nosso modo de vida atual.

o fato de a polícia federal americana ter tirado um site como o megaupload do ar desta maneira é sim um ataque gravíssimo ao direito de liberdade de expressão. sem falar que se a indústria e o governo dos eua não conseguem evitar que seus sites sejam tirados do ar, como é que eles querem mandar no funcionamento do resto da internet?

muito embora, de acordo com as leis atuais, o site compartilhasse arquivos ilegais, muita gente também perdeu arquivos com obras autorais com esta decisão. eu mesmo perdi vários arquivos de texto e áudio, produzidos por mim mesmo e cujos direitos autorais são 100% meus, que eu enviava para amigos e para motivos profissionais. ninguém me pediu autorização para deletá-los.

mesmo que o presidente barack obama tenha se declarado contrário ao sopa, é bom lembrar que o fbi responde diretamente ao presidente. portanto, ele é sim responsável pelo maior ataque ao compartilhamento de arquivos até hoje. e tudo isso justamente no dia em que ele visitou… a disney! é tipo um tapa na cara.

e para quem acha que todo esse papo é uma besteira, apenas espere o momento em que começarem a politizar pesado este assunto para ver se as coisas não mudam. nada como um ano de eleição para políticos e organizações começarem a tomar atitudes diante do mais leve cheiro de batata assada. tanto dá resultado que hoje o sopa foi retirado da pauta pelo congresso americano.

é curioso que a geração que mais se beneficia da rede é sempre aquela que atira a primeira pedra tentando desmerecê-la. ações como a de ontem são muito mais simbólicas do que qualquer outra coisa. são guerras simbólicas, guerrilhas comunicacionais, guerra através e pela linguagem, entende?

coincidência ou não, ontem a kodak, uma das empresas que ajudaram a definir o século xx, declarou falência devido ao avanço das tecnologias digitais. quer mais simbolismo do que isso?

esse papinho de revolução do sofá está mais caduco que a minha avó e já passou da hora de encarar a web com mais maturidade. não seria muito melhor se todas as guerras e revoluções fossem travadas na web, de forma pacífica, sem derramamento de sangue e mortes?

sem falar que a internet é apenas um meio, não um fim. não duvido nada que as pessoas comecem a ir para rua protestar e exigir liberdade na web. vocês já esqueceram de qual foi a linha evolutiva da primavera árabe e dos movimentos occupy?

nada mais natural que um ato sobre internet aconteça majoritariamente na internet, não? o melhor de tudo é que, ao contrário de qualquer outro meio de comunicação, a internet é um meio ativo que é feito por todo mundo. se as pessoas forem passivas a internet simplesmente não existe.

entendam: a internet É a rua. a rua É a internet.

vada a bordo, cazzo!

_____________

*** leia mais:

o conceito de “direito autoral” é uma invenção da disney

tudo é remix

porque “pirataria” é um conceito obsoleto e afeta da música à medicina



7 Responses to “quando a indústria do entretenimento dá um tiro no próprio pé”

  1. Excelente o texto. Já faz 15 anos ou mais que as leis de direitos autorais estão obsoletas, não acompanham a dinâmica dos consumidores e não protegem os artistas, verdadeiros donos das obras.

    • 2 Gustavo

      Concordo plenamente contigo, Florencia.

      • 3 Cadu

        Eu digo mais: as leis de direitos autorais estão obsoletas desde que a internet começou a ser usada para uso civil. E bota décadas nisso aí.

  2. 4 Adriano Papa

    As pessoas vivem em um torpor tão absurdo nas ultimas 2 decadas que uma geração inconcebivel de jovens surgiu, ferrenhos defensores de mega coorporaçoes, uma ideologia caucada no estatus mais puro e bruto do egoísmo e da possessão, a ideia de possuir não basta mais é preciso privar a maioria ao redor, assim a felicidade fica soberana.
    Eu cresci juntando dinheiro pra comprar um vinil e melhor do que o disco, era a caixa de fitas k7 que compravamos junto e a tarde trocando ideia, ouvindo aquilo e gravando pra todo mundo, o idiota do Lars Ulrich, colocou o Metallica na linha de fogo contra o Napster na epoca, alguns anos depois declarou que trocava k7s de varias bandas com outros caras por correspondencia.
    Não é possivel uma geração agora que se diz a favor de softwares , jogos de video games ou dvds sempre originais, absurdamente taxados nesse país, quando seus pais cresceram , estudaram e trabalharam (muito possuivelmente ainda usam) windows pirata, photoshops e etc… sem a tal “pirataria” o Brasil ainda estaria excluido da internet , seria um privilegio para poucos, e muita gente ainda defende esse modelo.
    Eu não troco uma industria pela outra, não concordo com venda de jogos, softwares e dvds piratas, mas sou plenamente a favor da troca livre de material e conhecimento, via share ou download, eles que se virem para aprender a ganhar dinheiro com isso, e digo mais , não é dificil.

  3. 5 zecaleme

    Concordo com os todos comentários… A industria é sim em partes responsável pelo que acontece hoje, talvez até a maior parte deve-se a postura da mesma no passar dos anos em que tinha realmente o controle da situação… A única coisa que não concordo é que o compartilhamento de seus arquivos (assim como seus direitos) deve ser uma opção/escolha do artista e não do publico presente na web…

  4. Como diria Godard – Não existe “direito autoral”, mas sim “dever autoral”.

  5. Reblogged this on Breaking The Law!e comentado:
    Excelente texto. Faz algumas conjecturas muito bacanas entre liberdade, compartilhamento e direitos autorais. Eu acredito que estamos experimentado uma nova forma de interação social propiciada pela internet. É pela tela do computador que podemos discutir porque a Luiza voltou do Canadá e também organizar um churrasco político em defesa de “gente diferenciada” que não tem muito costume de ir ao Canadá.


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