harry potter, racismo, homofobia e o mundo que gira

20abr13

já faz uns 5 anos pelo menos que vem rolando no mundo uma onda de fortes transformações sociais no que diz respeito aos costumes e modos de pensar que talvez julgássemos normais, insignificantes ou apenas adormecidos até pouco tempo atrás.

claro que o feminismo, a causa gay, o combate ao racismo e outros movimentos não surgiram hoje, nem ontem, mas me parece que essas e outras causas ganharam uma tremenda visibilidade nos últimos anos. creio que o surgimento e popularização das redes sociais tiveram papel fundamental para que esses movimentos e suas causas fossem alavancados e trazidos de volta aos holofotes com tanta força.

note que praticamente todo dia há alguma polêmica relacionada a esses temas ou a questões correlatas a eles na internet, seja no facebook, no twitter, youtube ou qualquer outra rede do tipo. não me lembro de isso acontecer com tanta frequência antes das redes sociais, pelo menos não a ponto de pautarem debates (ainda que rasos) na televisão e muito menos entre os congressistas em brasília.

resultados concretos dessa “militância virtual” (odeio este termo) já podem ser sentidos no mundo real com mais veemência. se antes cobrar por atitudes e soluções ficava restrito a ongs e outros grupos organizados, hoje qualquer pessoa pode fazer pressão política sem necessariamente se aliar a nenhuma organização de fato. mesmo que seja do conforto do seu sofá.

hoje malandro já percebeu que não pode dar deslize e xingar garis ou gays ou nordestinos na tv e depois dizer que estava apenas brincando ou contando piada. se o fizer já sabe que vão xingar muito no twitter. e, melhor ainda, já sabe que essas reclamações vão chegar diretamente aos seus ouvidos, sem filtro.

depois não adianta vir com discursinho de que o mundo está ficando politicamente correto e cheio de recalque. muito embora, às vezes seja um pouco disso também, nada te dá o direito de usar sua babaquice a favor do preconceito e da discriminação.

os exemplos são vários e estão todos aí: boris, rafinhas, malafaias, felicianos… e convenhamos, todos são vítimas apenas da própria estupidez.

além disso, o que há de errado na correção política? não é o que todos queremos desde que começamos a nos organizar em sociedades civilizadas?

claro que com essa facilidade de comunicação oferecida a todos, ganha voz também aquela corrente que quer ver o mundo girar ao contrário e que, para isso, produz todo um chorume de ideias indefensáveis.

o bom é que no mundo de hoje existem três opções: ou você banca o que disse e encara as consequências; ou desmente o que disse e encara as consequências; ou não diz nada e encara as consequências. o fato é que haverá consequências, mesmo que indiretas.

enfim.

passeando no youtube me deparei com um vídeo de uma estudante americana de ascendência coreana chamada rachel rostad onde ela declama um poema duro sobre como as séries de livros do harry potter, mesmo que talvez de forma inconsciente, possui e reproduz traços e clichês racistas e homofóbicos.

para dar sustentação à sua fala, o poema foi composto como se fosse uma carta escrita por cho chang, uma personagem asiática da série de livros, direcionada a j.k rowling, a autora da trama.

não li nenhum livro e também não vi nenhum filme da série, portanto, não posso dar opinião nem dizer se a acusação procede, mas como a crítica dela não se restringe apenas aos livros do harry potter (eles são apenas usados para exemplificar como a produção cultural ocidental recente está enraizada nesses valores) achei os argumentos da menina bem pertinentes, embora ela mesma abuse de clichês e generalizações.

abaixo boto o vídeo, gravado durante um concurso de poemas na universidade de barnard em nova york, e logo em seguida a transcrição do texto (se alguém tiver a tradução em português me avise que eu colo aqui com os devidos créditos).

assista ao vídeo, a coragem dela é impressionante.

When you put me in your books, millions of Asian girls across America rejoiced! Finally, a potential Halloween costume that wasn’t a geisha or Mulan! What’s not to love about me? I’m everyone’s favorite character! I totally get to fight tons of Death Eaters and have a great sense of humor and am full of complex emotions!

Oh wait. That’s the version of Harry Potter where I’m not fucking worthless.

First of all, you put me in Ravenclaw. Of course the only Asian at Hogwarts would be in the nerdy house. Too bad there wasn’t a house that specialized in computers and math and karate, huh?

I know, you thought you were being tolerant.
Between me, Dean, and the Indian twins, Hogwarts has like…five brown people? It doesn’t matter we’re all minor characters. Nah, you’re not racist!

Just like how you’re not homophobic, because Dumbledore’s totally gay!

Of course it’s never said in the books, but man. Hasn’t society come so far?

Now gays don’t just have to be closeted in real life—they can even be closeted fictionally!

Ms. Rowling. Let’s talk about my name. Cho. Chang.

Cho and Chang are both last names. They are both Korean last names.

I am supposed to be Chinese.

Me being named “Cho Chang” is like a Frenchman being named “Garcia Sanchez.”

So thank you. Thank you for giving me no heritage. Thank you for giving me a name as generic as a ninja costume. As chopstick hair ornaments.

Ms. Rowling, I know you’re just the latest participant in a long tradition of turning Asian women into a tragic fetish.

Madame Butterfly. Japanese woman falls in love with a white soldier, is abandoned, kills herself.

Miss Saigon. Vietnamese woman falls in love with a white soldier, is abandoned, kills herself.

Memoirs Of A Geisha. Lucy Liu in leather. Schoolgirl porn.

So let me cry over boys more than I speak.

Let me fulfill your diversity quota.

Just one more brown girl mourning her white hero.

No wonder Harry Potter’s got yellow fever.

We giggle behind small hands and “no speak Engrish.”

What else could a man see in me?

What else could I be but what you made me?

Subordinate. Submissive. Subplot.

Go ahead. Tell me I’m overreacting.

Ignore the fact that your books have sold 400 million copies worldwide.

I am plastered across movie screens,

a bestselling caricature.

Last summer,

I met a boy who spoke like rain against windows. –

He had his father’s blue eyes.

He’d press his wrist against mine and say he was too pale.

That my skin was so much more beautiful.

To him, I was Pacific sunset,

almond milk, a porcelain cup.

When he left me, I told myself I should have seen it coming.

I wasn’t sure I was sad but I cried anyway.

Girls who look like me are supposed to cry over boys who look like him.

I’d seen all the movies and read all the books.

We were just following the plot.

como eu disse, o argumento da menina em si, por vezes, contém clichês e generalizações. consciente disso, a própria rachel gravou uma vídeo-resposta bastante lúcida sobre o assunto.

vendo alguns comentários sobre o vídeo, é impressionante como sempre tentam desmerecer o argumento da menina com a justificativa de que é apenas um livro ou, pior ainda, de que ela está apenas tentando criar polêmica para “aparecer”. ou então tentam desmerecê-la atacando a pessoa e não o argumento dela. isso só empobrece a discussão levando-a para a vala do lugar comum, das generalizações e do preconceito que, veja só, é o ponto de todo o debate proposto por ela.

acho perfeitamente possível gostar e ser fã de um livro e ao mesmo tempo identificar e reconhecer que existem pontos problemáticos nele. esse argumento de que é apenas um livro e de que “se não gostou, não leia” é muito raso, uma vez que se esse mesmo livro vende milhões de cópias e depois é transformado em filmes e centenas de subprodutos é porque, de alguma forma, ele reflete, afeta e/ou influencia o modo como as pessoas pensam ou acreditam. logo ele pode sim ajudar a criar ou estabelecer preconceitos e percepções.

isso vale pra você também, dona bíblia.

acho que seria de grande valia se escritores (e qualquer outro tipo de artista) fossem mais politicamente ativos e discutissem mais sobre o peso filosófico daquilo que produzem, que tomassem mais posicionamento e refletissem mais sobre o que acontece no mundo fora de suas obras.

é uma pena, por exemplo, ver um escritor enfiar a mão debaixo do vestido de uma mulher sem a permissão dela e depois achar tudo isso normal e ainda fazer piada sobre o fato. pior ainda é ver que nenhum outro escritor se posicionou realmente sobre o assunto.

se ninguém se prontificar a discutir esses assuntos, continuaremos a repetir os mesmos erros que já duram séculos e séculos. continuaremos apenas seguindo o roteiro.

aguentemos as consequências.

*** dá pra saber mais sobre a tal rachel rostad nos links abaixo:

http://rachelrostad.tumblr.com/
https://www.facebook.com/rachelrostad



2 Responses to “harry potter, racismo, homofobia e o mundo que gira”

  1. Hi there friends, its fantastic post concerning educationand
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