a história da violência e do terror no cinema americano

13jul12

faz pouco tempo que vi o remake de “i spit on your grave” e fiquei totalmente enojado com o filme. nem tanto pelo fato dele ser totalmente misógino e sádico, mas por ser um filme totalmente ruim mesmo, sem texto, boas atuações e nem identidade estética.

para quem não sabe, o filme original de 1978 foi proibido em alguns países por conta das cenas fortes de violência contra a mulher e, por conta disso, ganhou o status de “cult”. também tentei assisti-lo, mas ele consegue ser ainda pior e mais amador que o remake. por favor, evite, é realmente muito ruim.

“i spit…” conta a história de uma jovem escritora bonitona que vai para uma cidadezinha do interior buscar inspiração para escrever seu novo livro. chegando lá, ela obviamente começa a chamar a atenção dos homens broncos da cidade que nunca tiveram a oportunidade de apreciar uma bela mulher naquele fim de mundo.

não demora muito tempo e alguns desses caras (incluindo o xerife) resolvem “dar uma lição” na moça e invadem sua casa a noite para tocar o terror. resultado: ela acaba sendo estuprada e espancada pelos indivíduos sem dó nem piedade e depois seu corpo é jogado num rio para apagar as evidências. o problema é que a moça não morreu e resolveu voltar para realizar sua vingança.

o que poderia ser um filme sobre machismo e a objetificação das mulheres acaba meio que se tornando um belo manual de como não se fazer um filme de horror e um belíssimo elogio à cretinice. isso porque o filme explora a nudez feminina e a violência contra ela de forma completamente sádica e quase masturbatória, sem nenhum compromisso com a reflexão do que se passa na tela.

é quase como se a vítima estivesse gostando de ser estuprada. e mesmo quando a moça começa a se vingar, o filme segue essa mesma linha como se a vingança (igualmente sádica e explicíta) fosse justificável. apenas violência pela violência, e nada mais.

na boa, se eu quisesse ver isso, iria assistir o programa do datena ou coisa que o valha.

enfim, depois de ver o filme fiquei completamente obcecado por filmes de horror e fiquei tentando lembrar qual foi o último filme do gênero realmente bom que eu assisti – por sinal, cheguei à conclusão que foi o primeiro “[rec]”, e nem é lá essas coisas – porque eu não lembrava de nenhum filme de terror que (mesmo que ruim) tivesse uma proposta tão vazia quanto “i spit…”.

depois de rever alguns filmes do gênero que fazia tempo que não assistia fui procurar documentários que pudessem me elucidar sobre o assunto ou que pelo menos refletissem sobre o sadismo neste tipo de filme porque, sinceramente, todo filme de terror que eu vi na vida sempre tinha algum objetivo ou idéia (por pior e mais rala que fosse) que se aproveitasse na vida.

foi então que trombei com dois docs legais sobre o assunto: “american nightmare” e “nightmares in red white & blue: the evolution of the american horror film” que destrincham a obsessão do cinema americano com a violência.

os primeiros filmes de terror hollywodianos começaram a ser realizados muito por culpa de diretores europeus que migraram para os eua nas primeiras décadas do século xx. eram adaptações da literatura européia como “frankenstein”, “drácula”, etc que geraram filmes diretamente inspirados no cinema expressionista alemão de filmes como “nosferatu” e “o gabinete do dr. caligari”, por exemplo.

filmes de horror, obviamente, tem compromisso com o medo e em grande medida com o susto, mas é importante ressaltar que a grande questão filosófica do gênero é com a questão da morte, da extinção do ser.

outro fator importante a ser ressaltado é que o gênero sempre foi muito político e sempre dialogou e se pôs como espelho ao espírito da época em que foi produzido, o tal do zeitgeist.

não é à toa que o expressionismo tenha se desenvolvido na alemanha do início do século xx. “nosferatu” é, sem dúvida, um prenúncio cinematográfico da ascenção de hitler ao poder.

note que nesta época o grande medo abordado nos filmes de horror era a transformação do homem em monstro. “frankenstein”, “drácula”, “lobisomem” entre outros abordam o medo da metamorfose do homem em um ser aparentemente malígno.

o que angustiava as pessoas neste período era aquele indíviduo diferente, fora do padrão estético da maioria, por isso vários filmes tinham anões e aleijados como atores ou sempre havia um mordomo corcunda ou caolho. e, na maioria das vezes, eles eram tratados como aberrações, assim como na vida real.

cenas do filme “freaks”, de 1932, cujos atores principais eram anões ou tinham várias deformações físicas e que foi censurado pela mgm sob a alegação de que o público não estava preparado para ver essas “aberrações”. o filme virou cult e é até hoje considerado um clássico do cinema de horror. detalhe importante: não foi usado nenhum efeito especial neste filme.

no mundo pós-hitler, monstros como frankenstein ou lobisomen não assustavam mais ninguém, uma vez que o füher era um homem como outro qualquer e não uma aberração criada em laboratório. como superar, nas telas, o horror que foi o nazismo na vida real?

a partir daí começam as preocupações com o fim do mundo e a bomba atômica, fatores que contribuíram imensamente para o surgimento dos filmes de ficção científica. o medo agora era em relação a monstros radioativos e pessoas mutantes, insetos e répteis gigantes, alienígenas, etc. sem falar no embate capitalismo/comunismo.

filmes como “o dia em que a terra parou”, “guerra dos mundos” e “invasores de corpos” eram alusões explícitas ao medo dos americanos em relação ao comunismo. eram filmes que exploravam muito mais o horror psicológico em detrimento do físico e geralmente denunciavam a xenofobia.

os aliens eram sempre as ameaças, não existia alienígena bonzinho, eles estavam sempre querendo quebrar a ordem da sociedade estruturada e conservadora, que no fundo, refutava o diferente (os aliens).

no entanto, o cara que melhor entendeu esse espírito pós-hitler foi o hitchcock ao criar filmes onde muitas das vezes os personagens mais adoráveis eram também os assassinos da história. pessoas “normais” que, devido a fatores comuns a qualquer indivíduo, se tornavam serial killers sádicos. todo mundo é uma vítima ou um assasino em potencial, entende?

nos anos 60, com o agravamento da guerra do vietnã e o surgimento da contracultura os filmes começam a contestar tudo, a busca pela individualidade, a religião, os costumes e a paranóia em que vivia os eua naquela época. surgem então filmes como “o bebê de rosemary”, “repulsa ao sexo” e “easy rider”, por exemplo, que foram marcantes ao retratar o sexo, a violência e o horror da época. mais tarde surgem também os filmes de zumbis.

filmes de zumbis, aliás, são talvez a melhor forma já inventada para retratar os eua na virada dos anos 60′ para os 70′. eles são nada mais nada menos que a representação dos excessos do capitalismo, onde as pessoas deixam de ter vontade própria e agem como mortos-vivos em efeito manada.

não é à toa que o george romero (praticamente o inventor deste gênero no cinema) teve a genial idéia de botar os sobreviventes do apocalipse zumbi em “madrugada dos mortos” (1978) presos em um shopping center. sem falar que zumbi se alimenta de… cérebros!

romero já tinha provocado a sociedade americana em “a noite dos mortos vivos” (1968), por ter colocado um ator negro como o herói do filme e que, mesmo lutando contra os zumbis, acaba morto por brancos não-zumbis.

é nos anos 70 e 80 que o cinema de horror tem o seu auge nos filmes mais sanguinolentos do gênero.

no ínico dos anos 70, sob o governo de richard nixon, é que surgem os chamados slasher movies, aqueles filmes com serial killers sádicos, tais como “o massacre da serra elétrica”, “sexta-feira 13” e que tais. filmes que, de certa forma, expressam o conservadorismo e a injustiça social em que vivia o país naquela época. os ricos ficavam mais ricos, os pobres mais pobres e a violência só aumentava.

geralmente os assassinos destes filmes tem subempregos em postos de gasolinas, açougues, serralherias ou lugares deste tipo. e sempre atacam enquanto um casalzinho inocente está dando uns amassos no banco de trás de um carro ou numa festa de faculdade. aqui a mensagem é clara: o sexo antes do casamento é proibido neste país e os fracassados um dia terão  sua vingança.

vale lembrar também que é nesta época em que as mulheres aparecem como heroínas neste tipo de filme. “carrie – a estranha”, jamie lee curtis em “halloween” e posteriormente a sigourney weaver em “alien – o oitavo passageiro” são grandes símbolos desta tendência.

uma coisa que os dois documentários não falam muito, mas que fica evidente ao se analisar a linha evolutiva da violência no cinema americano, é que os melhores filmes de horror foram produzidos durante governos republicanos ou durante grandes crises políticas ou bélicas. “laranja mecânica”, “o iluminado”, “taxi driver”, os filmes de guerra do coppola, os melhores do polanski, entre outros, foram produzidos sob governos republicanos.

vale lembrar que freddy kruger, um dos maiores ícones dos anos 80, era claramente tratado como a personificação cinematográfica de ronald reagan, o “presidente que acabaria com os sonhos das criancinhas americanas”.

já os filmes feitos durante os governos democratas não primam muito pelo jorro de sangue, são mais focados no terror psicológico, basta ver os filmes da era bill clinton cujos melhores filmes são no estilo de “seven”, “o silêncio dos inocentes” e “psicopata americano”, muito embora este último tenha sido baseado em livro escrito nos anos 80.

numa década fraca para os filmes de terror, os maiores sucessos dos anos 90 foram filmes medíocres como os das séries “pânico” e “eu sei o que vocês fizeram no verão passado”.

durantes os anos bush, pós-11 de setembro, o cinema americano de horror sofreu o mesmo baque tomado na época do nazismo, com a ficção tendo dificuldades para superar a violência da vida real. não é por acaso que o filme símbolo deste período é “jogos mortais” (claramente baseado na prisão de abu ghraib) e que os zumbis não andam mais sonolentos e idiotas, agora eles são velocistas, super fortes e loucos.

e o que temos de bom sendo produzido neste gênero durante a era obama? praticamente nada. o marco dos primeiros anos deste governo democrata são filmes onde os vampiros são castos, melancólicos e vegetarianos (a saga “crepúsculo”). para mim o que melhor simboliza essa época nem são os filmes, mas sim as séries de tv.

“breaking bad” e “the walking dead”, por exemplo, são claras referências à crise financeira e às forças conservadoras que assolam os eua atualmente. seja no cara honesto que, ao se deparar com um câncer e com a falta de dinheiro para pagar um plano de saúde, começa a traficar drogas para garantir um futuro digno para a família, ou no cara que, sozinho (obama?), tenta gerenciar uma comunidade em crise diante de um apocalispse zumbi. sem falar no plot de “homeland” onde o terrorista é o soldado conservador e patriota.

enfim, esperemos o desenrolar das próximas eleições para saber quais serão os rumos do cinema de horror americano na primeira metade desta década.

abaixo dá para assistir a primeira parte do documentário “american nightmare”. assista, porque é essencial para entender tudo que eu falei até aqui.

dá para ver as partes 2,3,4 e 5 inteirinhas no youtube.



2 Responses to “a história da violência e do terror no cinema americano”

  1. Uma tendência até que marcante e recente no cinema de terror que eu vejo são os filmes found footage, um resgate de fórmulas já usadas em filmes como Holocausto Canibal e Bruxa de Blair.

    • 2 Cadu

      Muito bem lembrado! Uma coisa que eu esqueci de citar no texto é o da assimilação de tecnologias no cinema de horror.

      Nos anos 80 vários filmes do gênero conseguiram mesclar com sucesso suas tramas com a nova tecnologia e linguagem do videotape e da própria tv em si, como por exemplo “Poltergeist”, “Videodrome” e o próprio Freddy Kruger, para ficar apenas em alguns exemplos.

      Mais recentemente, houve uma espécie de revival disso tudo, como você já citou, com “A bruxa de Blair”, “O Chamado”, “Cloverfield” e “Super 8”, por exemplo. Mas são filmes que apenas revivem algo que já foi feito anteriormente, com uma tecnologia (ou estética) obsoleta: a do videotape.

      Assim de cabeça, não me lembro de nenhum filme que tenha utilizado bem a tecnologia atual em prol do terror, apenas filmes como “Por um fio” (aquele com o Colin Farrell que usa bastante o celular) e “Menina má.com” que brinca com o lance da internet. E só.


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