os melhores discos de 2011

30dez11

pj harvey – “let england shake”

não é qualquer um que consegue chegar ao décimo disco da carreira e ser saudado de maneira quase unânime como autor do melhor disco do ano. pj harvey demorou três anos para lançar “let england shake” e durante todo este tempo ela foi maturando um álbum épico que trata basicamente de guerra e de como o reino unido construiu seu império basicamente através dela.

já li em algum lugar alguém dizendo que francis ford coppola fez o filme definitivo sobre guerras (“apocalypse now”) e agora pj harvey conseguiu o mesmo feito na música. exageros à parte, o disco é uma dura crítica ao império britânico e ao uso da força de uma forma geral.

ao ouví-lo pela primeira vez imediatamente me veio à cabeça “arthur (or the decline and fall of the british empire)”, disco clássico dos kinks que critica o modo de vida britânico e que também dá um choque de realidade naqueles que acham que a inglaterra é uma ilha dos sonhos.

outro disco que me veio à mente ao ouvir “let england shake” foi o “murder ballads” do nick cave, ex-namorado e parceiro musical de pj, que trata basicamente de morte, desta vez por motivos passionais. naquele disco inclusive pj canta uma música onde ela assassina o amante. teria vindo daí a idéia para este disco de 2011 uma vez que geralmente guerras também tendem a ser justificadas pelo amor (à pátria)?

para ajudar a compor o disco, a cantora ouviu relatos de pessoas que estiveram na guerra do iraque e do afeganistão. além disso, ela também se inspirou na batalha de gallipoli, quando o império britânico tentou invadir o império otomano e tomar o poder de constantinopla de modo a garantir uma rota ocêanica em direção à rússia. na ocasião, a inglaterra perdeu a guerra e isso é motivo de orgulho para o povo turco até hoje.

assim como foi praxe na carreira da cantora durante a última década, neste disco ela troca as guitarras raivosas por instrumentos mais sutis e delicados como a harpa, por exemplo. mas isso não quer dizer que ela tenha ficado mais careta ou algo do tipo. muito pelo contrário, polly jean continua ousada, provocativa e com a língua mais afiada do que nunca.

além de se inspirar em t.s eliot e harold pinter para fazer as letras do disco, a cantora também usa intervenções e citações espertas para ajudar a contar a história por trás do álbum como samples da música “istanbul (not constantinople)”, do grupo canadense the four lads, ou então o refrão de “summertime blues”, do eddie cochran, na faixa “the words that maketh murder”, por exemplo.

o grande mérito de “let england shake” (e de qualquer outro grande disco) é conseguir captar todo o zeitgeist, ou seja, todo o espírito de uma época no momento exato em que a história acontece uma vez que o disco foi lançado pouco tempo depois do início da primavera árabe e precedeu os protestos em londres e os movimentos occupy ao redor do planeta. sem falar que este ano o declínio do império britânico já foi simbolizado pelo fato de o brasil ter ultrapassado o reino unido como a sexta maior economia do planeta.

pj harvey ainda ganha pontos por provar mais uma vez que, em pleno ano de 2011, uma mulher madura de 42 anos pode bater o pé e se meter a fazer um álbum conceitual e com temas complexos em plena era do mp3 e da síndrome do déficit de atenção e ainda ser reconhecida e reverenciada por isso.

daqui a algum tempo, quando alguém quiser saber como 2011 foi retratado no campo das artes, “let england shake” é uma belíssima ilustração deste momento. já é um marco neste início de década e isso não é pouca coisa.

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tune yards – “who kill”

este projeto liderado pela multi instrumentista merril garbus talvez tenha sido a melhor surpresa do ano. “who kill” é daqueles discos que logo na primeira audição eu já sabia que poucas coisas em 2011 conseguiriam superar tamanha criatividade banhada em pop radiofônico sem medo de experimentar com o diferente. ao lado do dirty projectors, o tune yards é uma das bandas novas que mais me fazem esperar pelo próximo disco. (leia mais)

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criolo – “nó na orelha”

este com certeza foi o disco mais hypado, discutido e achincalhado em 2011. e também um dos menos ouvidos. o mais interessante é ver gente lá no começo do ano tratando “não existe amor em sp” como hino genial e agora no fim do ano este mesmo pessoal dizendo que nunca ouviu tamanha porcaria na vida.

não me lembro da última vez em que a “crítica musical” brasileira tenha resenhado tanto um artista nacional sem sequer cair no mérito musical. até se o criolo é criolo o suficiente para ser chamado de criolo virou tema de pauta, vê se pode.

vi muitos jornalistas, outrora respeitados, assinando o recibo de total irrelevância por aí a base de muitos xingamentos e arrivismos. e ainda querendo aplauso por isso.

pouca gente entendeu que agora ninguém mais confia em crítico que caga regra na base do “não ouvi e não gostei” e do autoritarismo intelectual. o pior de tudo é que a galera faz isso com um ódio mortal sabe-se lá do quê e como se isso fosse influenciar de forma definitiva os rumos da humanidade dali em diante. como se, para o bem de nossos filhos, todos tivessem que se unir para acabar com o mau que tal disco  x ou artista y parecem querer impregnar no planeta. é muito pélasaquismo.

no que diz respeito à música, acho que o disco está longe de ser perfeito, mas é inegável que eleva o rap nacional a um novo patamar no que tange à produção, aos arranjos e à abordagem e abrangência pop dos temas ali expostos. isso porque eu acho que “nó na orelha” nem é um disco de rap propriamente dito, uma vez que flerta com uma gama de estilos bem mais ampla e diversificada. eis aí o grande mérito do álbum.

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kassin – “sonhando acordado”

apesar de ter vários projetos paralelos e ser produtor de vários discos legais da música brasileira nos últimos anos (como o “ventura”, melhor disco do los hermanos, por exemplo), esta é a primeira vez que kassin tem um disco que leva apenas o seu nome. como o próprio título já diz, “sonhando acordado” tem os sonhos como fio condutor e é exatamente isso que garante pérolas absurdas como “calça de ginástica” (hit delicioso) ou então letras que falam sobre como a falta de potássio pode causar cãimbras durante a noite.

tudo isso ancorado numa produção enxuta num disco que desce fácil e não possui nenhuma música que te faça querer que o disco acabe logo. excelente.

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mayer hawthorne – “how do you do”

já faz alguns anos que o r’n’b americano se perdeu em clichês, autotune e bling bling em excesso. o que ninguém poderia imaginar é que os melhores discos do gênero passariam a ser feitos por branquelos de cintura dura que em qualquer outra ocasião seriam vistos apenas como meros “piás de condomínio”. mayer hawthorne talvez seja o cara que melhor se encaixa nesta descrição ao mesmo tempo em que é o maior expoente dessa reedição da “soul music de olhos azuis” que ganha corpo a cada ano.

com dois excelentes discos no currículo o cara mostra que realmente sabe cantar e compor em altíssimo nível, além de se mostrar um belo produtor. sem falar que ele ainda virou bróder do snoop dogg (com quem já tem duas ótimas parcerias) e com isso também vai derrubando fronteiras e ganhando cada vez mais street cred para com os céticos.

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bixiga 70

com uma mistura de música africana e batuques em geral –  que remetem logo de cara a fela kuti – e suas descendências naturais como, por exemplo, o funk, o jazz, os afro-sambas, o carimbó, a guitarrada e a música latina culminando finalmente em quincy jones e nas big bands, o bixiga 70 é um grupo paulistano formado por cerca de dez integrantes, todos músicos respeitados no circuito underground da capital paulista, e fez um dos melhores discos do ano com uma bela e bem apurada mistura de ritmos, nuances e temas.

o mais legal de tudo é que com exceção de “desengano da vista”, de autoria do percussionista pedro santos (que já tocou com baden powell, elis regina entre outros), todas as músicas foram compostas pela própria banda. o fato de nomearem a banda com o nome do bairro que é considerado o berço do samba paulistano dá ainda mais a sensação de que o grupo é um grande amálgama da música ritmíca mundial. excelente para quem ainda é iniciante neste universo.

a música instrumental brasileira vai muito bem, obrigado.

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lykke li – “wounded rhymes”

depois de um bom disco de estréia, a sueca lykke li reapareceu este ano com vontade de ser pop. além de conceber três ou quatro hits (embora nenhum se compare a “i’m good i’m gone”), que lhe renderam aparições em trilhas de filmes, seriados e games, a cantora parece ter sofrido um imenso pé na bunda e isso fica bem evidente em “wounded rhymes”, onde transbordam os disparates contra algum ex-amor.

dito isto, este álbum tinha tudo para ser chato e rancoroso, mas a evolução de lykke li enquanto compositora bota o disco no prumo e mostra que ela não está nem um pouco interessada em ser apenas mais um rosto bonitinho.

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tv on the radio – “nine types of light”

rock, trip-hop, soul music, eletrônico, pós-punk, experimentalismo e até um pouquinho de free jazz. esses são apenas alguns dos elementos que ajudam a transformar “nine types of light” num dos melhores discos do ano e, talvez, o disco mais pop e acessível desta banda do brooklyn. vai por mim: o tv on the radio nunca decepciona. (leia mais)

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autoramas – “música crocante”

uma das melhores bandas do brasil já faz um tempo, o autoramas dá o ar da graça nesta lista com seu primeiro disco de inéditas desde “teletransporte”, de 2007. com guitarras ainda mais refinadas e enxutas, o disco também é o primeiro que conta com composições e vocais da baixista flávia couri, que também ajuda a encorpar ainda mais as canções de gabriel thomaz, um dos grandes hitmakers do rock nacional recente. se você gosta de rock de guitarras cantado em português este é o disco.

*** esta lista não tem nenhuma ordem de preferência ou algo do tipo.



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