eleições 2010: eu, tu, eles

02nov10

acabaram as eleições e, para mim, o sentimento que ficou é que o país está dividido em três. de um lado estão aqueles que, mesmo não concordando cegamente com o governo lula, acreditam que o país deu um avanço exponencial nos últimos oito anos e que o aprofundamento de tais políticas empregadas durante este período é o caminho a ser seguido daqui pra frente.

do outro lado estão aqueles que – cinicamente – acreditam que o país avançou nos últimos oito anos mas que tudo aconteceu por força das circunstâncias, que isso aconteceria não importa quem estivesse ocupando a cadeira de presidente. geralmente, o argumento usado por estes é de que fatores externos tais como a crise nas economias do mundo desenvolvido e a necessidade que empresários destes países tiveram em investir nos países em desenvolvimento para evitarem a falência, ajudou o brasil. explicando mal e toscamente é assim: o cara é dono de uma empresa americana que faz asfalto. como os eua estão em crise e sem dinheiro para fazer rodovias a saída é esse cara vir para o brasil, que está em desenvolvimento e precisando de rodovias, onde ele, obviamente, tem mais chances de ganhar dinheiro. entende?

no terceiro grupo, o menor deles, estão os indecisos, os apolíticos e aqueles que “se revoltaram com o sistema”. os apolíticos são aquelas pessoas que não se importam muito com a política, que adotam aquele discurso de que “tudo está bem desde que tudo esteja bem”. ela tendo emprego e dinheiro para não passar perrengue e comprar o que quer, pouco importa quem está no governo. no dia das eleições vai para a praia.

os indecisos são aqueles que até se interessam por política mas não sabem bem em quem acreditar. têm medo de serem taxados de “esquerdistas vagabundos” ou de “direitistas reacionários”. na dúvida, não acham nada. já os revoltados são aqueles para quem todo e qualquer político é bandido e que só visam interesses próprios e “que se foda brasília inteira, bando de safados”. não por acaso, apolíticos, indecisos e “revoltados” acabam virando estatística e colocados sempre no mesmo saco ao fim das eleições.

o papo mais recorrente que ouvi ao conversar com amigos e pessoas próximas durante esta eleição é que hoje em dia não existe mais direita e esquerda. tudo está muito homogêneo. os pessimistas dizem que é porque estão todos muito parecidos na hora de roubar. os menos pessimistas dizem que essa homogeneidade acontece porque não há mais razão em dividir a política entre capitalismo e socialismo. hoje é tudo capitalismo.

até concordo em partes com essa maneira de ver as coisas, mas tenho a impressão que essa divisão entre esquerda e direita não existe (ou finge que não existe) apenas por parte dos eleitores. talvez o povo é que não saiba ou não se preocupe mais em dividir a política desta maneira. no entanto, os partidos políticos têm essa visão muito clara. com exceção dos partidos maria-vai-com-as-outras de sempre (pmdb, dem…), a divisão entre esquerda e direita está muito bem definida e exposta no brasil e no mundo. ambos os lados tem projetos claros e divergem sim entre si.

a direita é sim mais voltada para a elite e classes mais educadas. são a favor da manutenção da propriedade e de investimentos de capital estrangeiro no país. não gostam de um estado muito intervencionista. aqui o pensamento é pelo viés da economia, onde o melhor sempre vence e isso nem sempre é o mais justo. as classes mais baixas são ajudadas e a ascenção social também existe, mas segue num ritmo mais lento.

a esquerda é voltada para as classes mais necessitadas, de origem pobre e, não adianta negar, pende para o assistencialismo. são a favor de maior distribuição de renda e acreditam na máquina pública mais presente. aqui o pensamento é mais pelo viés social do que pelo econômico.

não entendo patavinas de política, mas tenho a impressão que a razão para as pessoas não enxergarem diferenças entre direita e esquerda é porque quando um partido chega ao poder, este partido tende a alinhar-se mais ao centro. eu acho este movimento essencial e necessário, caso contrário não há obama que consiga governar. governos recentes onde o presidente pendeu para um lado ou para o outro enfrentaram turbulências e não deram muito certo, vide os exemplos de george w. bush e hugo chávez.

o que me assusta um pouco é quando as pessoas levam a política para os extremos, seja à esquerda ou à direita. e nessas eleições o que mais aconteceu foi isso. a política moderada não teve vez no pleito de 2010. não houve discussão de idéias, propostas ou planos de governo. ou se era da esquerda, ou se era da direita. quem tentou a neutralidade com idéias igualmente vazias acabou o pleito sendo taxado de morde-assopra. vide o caso da marina silva.

não concordo em quase nada com as propostas do psdb, principalmente tendo sentido diretamente o resultado de tais políticas no estado de são paulo, onde moro e onde essas políticas estão ativas há 16 anos. tenho lá minhas restrições ao governo lula mas reconheço que o país andou nos últimos oito anos. e adoraria que, de fato, houvesse uma terceira via realmente viável no brasil. não é o que temos, por enquanto.

o problema de ter partidos adotando posições políticas extremistas é que o único prejudicado nessa história toda é o eleitor. no fim a única idéia que ele acaba absorvendo é a do medo. nessa eleição, o uso dessa tática aconteceu a torto e a direito. primeiro com veículos de imprensa da (extrema) direita tentando a todo custo desqualificar a candidata do governo com 80% de aprovação popular. depois com a militância dessa candidata reagindo e partindo para a agressão sob a acusação de que o país estava sob o risco de sofrer um golpe, ou de que seria vendido para estrangeiros. jogo sujo dos dois lados.

a imprensa também não deixou por menos e resolveu tomar partido na cara dura a favor do candidato do psdb. a maioria não assumiu isso publicamente e quem assumiu (estadão) só o fez um dia antes do primeiro turno. desta forma, o leitor que acreditou no apartidarismo do jornal durante o últimos dez meses de campanha se sentiu totalmente vendido com a situação. isso não se faz.

mas o que mais me espantou foi o terrorismo velado das campanhas pela internet, onde realmente valia de tudo. desde chamar dilma roussef de terrorista e lésbica (como se isso fosse ofensa) até a veiculação de vídeos pregando o apocalipse em 2012 caso ela fosse eleita, passando por campanhas para fomentar trending topics caluniosos no twitter. mas o pior mesmo foram as campanhas oficiosas do candidato da direita ao abordar temas como aborto, religião e a distribuição de panfletos em igrejas e templos e emails virais com o fim de derrubar sua oponente. minha mãe chegou até a receber telefonemas com gravações pedindo para que não se votasse na dilma.

a extremíssima direita, até então reduzida apenas à revista veja, mostrou a sua força. a veja, inclusive meio que se auto-proclamou como a fox news brasileira fazendo associações elaboradíssimas entre ditadura, liberdade de imprensa e a esquerda dignas de uma criança de quatro anos de idade. tudo isso sendo prontamente respondido na internet minutos depois que aconteciam, das acusações de corrupção ao caso da bolinha de papel. liberdade de imprensa, aliás, foi um dos temas preferidos da direita para tentar passar medo na população. enquanto isso, o governo de são paulo manda e desmanda na tv cultura -financiada pelo estado – há 16 anos (inclusive demitindo jornalistas que criticam o governo estadual) e ninguém fala nada.

o que me espanta é que ao que parece as pessoas não conseguiram interpretar com nitidez essa rede de informação e contra-informação. muitas vezes me pareceu que o medo estava vencendo, dos dois lados. para quem apóia a direita ainda pesa muito este estigma (muitas vezes errôneo) de associar o pt a bandidos, uma quadrilha infiltrada em brasília. diogos mainardis e reinaldos azevedos inventaram até um apelidinho cretino: petralhas. o argumento é que nunca se roubou tanto quanto no governo lula.

o engraçado é que pintam o psdb como um exemplo de honestidade e pureza. ambos são igualmente corruptos. nem para mais nem para menos. a direita clama pela alternância de poder mas estão há 16 anos ininterruptos governando o estado de são paulo, onde chamam isso de continuidade. ao passo que as seguidas reeleições da família sarney no maranhão são chamadas pejorativamente de continuísmo. até que se prove o contrário, ambos foram eleitos DEMOCRATICAMENTE. lidem com isso. o mesmo vale para o tiririca.

ficou claro que, com exceção da carta capital e uma suspeitíssima adesão da rede record, todos os veículos de comunicação deste país apóiam a direita. portanto, não é de se estranhar que não hajam denúncias de corrupção em governos tucanos com tanta frequência. alguém aí lembra de alguma denúncia contra aécio neves ou josé serra nos últimos oito anos? você acredita em governo sem corrupção? eu não.

não estou dizendo que jornalistas que trabalham nestes veículos são mentirosos ou não mereçam confiança. a coisa é muito mais em cima. empresas jornalísticas, no brasil, são propriedades de famílias poderosas. jornalistas são meros peões nesse jogo, meros instrumentos de manobra, às vezes até mesmo sem saber. e sempre foi assim.

as pessoas de ambos os lados não sabem explicar como o pt rouba tanto ao mesmo tempo que o país cresce em velocidade estrondosa. vale lembrar que a elite (predominantemete de direita) também nunca ganhou tanto dinheiro quanto no governo lula, vide o faturamento de banqueiros batendo recordes todos os anos. você já tinha ouvido falar de eike batista antes? também não sabem explicar como o psdb é tão puro ao mesmo tempo que os estados por ele governados vivem em constante pasmaceira. é a velha teoria do relógio: todo mundo sabe como um relógio funciona, mas ninguém sabe explicar como um relógio de fato funciona.

com o uso do extremismo como instrumento de campanha o que se viu foi uma divisão clara entre quem votou em dilma e entre quem não votou nela. com o fim do pleito, radicais de direita deram uma verdadeira aula de neo-fascismo na internet (principalmente no twitter) humilhando pobres e nordestinos por terem votado nela. quem votou em dilma posou meio que de libertário e generalizou a direita como reacionária. no entanto, acredito que se o serra tivesse sido eleito teríamos o mesmo problema, não tanto em relação a raças e etnias, mas em relação a classes sociais. não se engane, a guerra no brasil ainda é de classes. a diferença aí é que geralmente ricos são brancos e pobres são negros.

o que muita gente não percebeu é que essas reações não representam o todo da população. quem frequenta o twitter geralmente é uma minoria branca, classe-média estudada. e os radicais são 1% desta parcela. esses extremistas usam a mesma tática da extrema direita americana tentando desqualificar o oponente a todo custo, não importa os meios. repare: chamaram obama de terrorista e mulçumano por conta de seu sobrenome “hussein”. dilma foi chamada de terrorista, anti-católica e comedora de criancinhas. disseram que obama não era americano por conta de ter vivido na indonésia na infância. não me espantaria se, até o dia da posse, levassem a cabo essa história da dilma não poder entrar nos eua por conta de seu passado durante a ditadura.

o que o próximo governo precisa fazer é unir direita e esquerda em benefício do país. dar ênfase no nordeste e acabar com a míséria. veja bem, eu não disse pobreza, eu disse miséria que é o maior mal existente neste país. não se pode pensar apenas em economia e pré-sal quando as pessoas ainda bebem a mesma água com que lavam o banheiro. pelos discursos da presidente eleita após a apuração de domingo confesso que fiquei animado. não há o que temer.

para os extremistas eu sugiro que tenhamos humoristas tão contestadores quanto os que a fox news original enfrenta nos estados unidos. precisamos é de debates para restaurar a sanidade.



One Response to “eleições 2010: eu, tu, eles”


  1. 1 quando a grande mídia cala « let it blog

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