“um homem sério”, de joel e ethan coen

04mar10

poucos diretores no cinema contemporâneo tem o privilégio de poderem escolher quais filmes vão fazer, com quem vão trabalhar e quando vão realizá-los. diria que nesta categoria estão quentin tarantino, wes anderson, paul thomas anderson (tenho minhas dúvidas), david lynch e os irmãos coen. talvez o woody allen também se encaixe mas tenho a impressão que ele ainda é obrigado a mendigar financiamento dos estúdios. o fato de ultimamente ter se exilado na europa (e futuramente no brasil, dizem) contribui para essa dúvida.

os que acho que realmente não dependem de ninguém e, melhor ainda, não se sujeitam à intromissão dos estúdios em qualquer estágio do processo são inegavelmente tarantino, david lynch e os irmãos joel e ethan coen.todos eles parecem pintar e bordar com roteiros, elencos e modos de filmar sem se preocupar se agradarão o público, os produtores ou seus financiadores. fazem o que querem e ponto.

após “kill bill”, por exemplo, tarantino ficou quase cinco anos sem filmar… porque quis. sumiu do mapa. voltou com um filme b, e um outro sobre caçadores de nazistas.

david lynch não faz um filme convencional desde, sei lá, “o homem elefante”. e cada vez parece pirar mais em suas viagens dando explicações apenas a si mesmo.

os irmãos coen tamém se orgulham de não serem “normais”. ou você imagina algum diretor fazendo filmes como “o grande lebowski”, “queime depois de ler” ou até mesmo “onde os fracos não tem vez”  hoje em dia? talvez, alguns dos citados no primeiro parágrafo, mas mesmo assim não se enquadram no estilo. 

com a infantilização de hollywood cada vez mais forte e dominante, onde vale mais a chapação causada por efeitos visuais numa tela gigante do que uma boa história (regra que vai ser incrivelmente potencializada com a consolidação do 3d, anote), esses caras, em certa medida, formam um gueto cinematográfico onde acabam, querendo ou não, trazendo de novo aquela aura do famigerado “cinema de autor”. tenho a impressão que essa trupe só vai começar a ser valorizada daqui vinte, trinta anos quando uma nova geração aparecer dizendo ser influenciada por esses caras.

pegue por exemplo, “a serious man”, o novo filme dos coen. cara, que PORRA de filme é esse? quem na face do planeta teria colhões de fazer um filme tão estranho como esse? esqueça o cabecismo oco do lars von trier (desculpa, acho o cara chatão). o lance aqui é sério.

assisti duas vezes e ainda não decidi se gostei. ou melhor, se eu tenho que gostar. 

[aseriousdoctor.jpg]

o filme conta a história de larry gopnik, um professor de física judeu que tenta entender o sentido da vida enquanto sua mulher anuncia que quer o divórcio para viver com um amigo viúvo da família; o filho fuma maconha escondido enquanto se prepara para seu bar mitzvah; a filha lhe rouba dinheiro para fazer uma cirurgia plástica no nariz; um aluno o suborna para ganhar notas mais altas e o pai deste aluno ameaça processá-lo se ele aceitar o suborno. não bastasse tudo isso, larry ainda tem que lidar com o irmão quarentão meio psicótico que vive num quarto nos fundos de sua casa.

com o humor negro característico dos coen, o filme não faz questão nenhuma de explicar ao expectador os motivos da história que se passa na tela. alguém sabe explicar o que é aquela cena inicial bizarra sobre o dybbuk, a lenda do fantasma judeu?

a ironia dos coen aqui parece ter como alvo toda a cadeia cinematográfica. desde a máquina de moer carne de hollywood até você, espectador. tecnicamente perfeito e filmado de forma belíssima de modo a não deixar dúvidas do talento dos irmãos, “a serious man” dá uma zoada na forma como caminha a industria do entretenimento hoje em dia. a idéia é mesmo irritar o espectador ao mesmo tempo em que o mantém vidrado na tela com imagens que hipnotizam, mas você não sabe bem o porque de estar sendo hipnotizado. 

preciso ressaltar mais uma vez: o filme é extremamente irritante. e toda essa irritante passividade do protagonista diante de um mundo caótico e sem sentido serve como metáfora ao modus operandi de hollywood nos dias atuais. qual o sentido disso tudo? qual o sentido do filme? precisa fazer sentido? o filme é idiota? eu sou um idiota? é legal ser  idiota? isso é arte?

o ponto chave do filme é quando larry questiona deus: “por que Ele nos faz sentir as perguntas se não vai nos dar nenhuma resposta?”.

os irmãos coen estão tirando sarro da sua cara e você tá gostando. perceba que o trailer (genial) é ditado pelas cabeçadas do cara na parede. isso não é… irritante?

ps: a letra de irônica de “somebody to love” do jefferson airplane (presente durante todo o filme) explica o sentido do filme. isso se ele tiver algum sentido, claro.



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