discoteca – “death proof”, de quentin tarantino

29jan10

finalmente assisti “death proof”, o primeiro filme da suíte “grindhouse” que quentin tarantino fez com robert rodriguez. este último ficou encarregado de filmar “planeta terror”.

a idéia do projeto era que cada diretor fizesse um média-metragem que, juntos, resultariam em um único longa. o problema é que cada filme acabou ficando com 1h30 de duração e dificilmente encontrariam distribuidores fora dos eua que concordariam em lançar um filme de baixo orçamento com quase três horas de duração. a solução foi dividir o filme em dois e lançá-los separadamente.

enquanto o filme de rodriguez tenta emular os filmes b dos anos 70 – também conhecidos como trash, filmes de drive-in ou exploitation – visando apenas o conceito estético e esquecendo que a idéia, naquela época, era fazer filmes bons mas que acabavam não tendo o resultado esperado por deficiências técnicas ou financeiras, o filme de tarantino é puro cinema, o creme do creme.

“planeta terror” peca por exagerar nos (d)efeitos especiais. o excesso de chuviscos na tela, o excesso de envelhecimento artificial e efeitos que dão a sensação de que rolos de filme estão picotados e com partes faltando apenas deixam o filme mais caricato. o de tarantinho também tem isso mas ele não se apóia neles para fazer “death proof”.

 a sensação que dá é que robert rodriguez até percebeu a artificialidade de seu filme no meio do caminho e – vendo que não tinha mais jeito –  resolveu partir para a bagaceira total. aliás, é o que salva “planet terror”, o filme sabe que é ruim e explora isso. e o resultado ficou tão ruim, mas tão ruim que acaba sendo bom, entende? é um filme de zumbis, como filmes de zumbis devem ser.

“death proof”, por sua vez,  conta a história de stuntman mike um dublê de cenas de ação totalmente misógino, vivido brilhantemente por kurt russell, que utiliza seu possante carro preto para assassinar mulheres bonitas em cidadezinhas do interior dos estados unidos. no filme ele persegue um grupo de amigas formado pelas beldades rosario dawson, vanessa ferlito, sydney tamiia poitier e mary elizabeth winstead. elas passeiam em seu doge challenger branco por bares fuleiros e strip clubs de beira de estrada tocando o terror e arrebatando os corações da marmanjada. ou seja, cenário perfeito para tarantino ser tarantino.

o diretor leva o conceito de exploitation ao pé da letra e mergulha o espectador em cenas de ultra violência, carrões com motores barulhentos, referências pop obscuras e, claro, muita mulher bonita, muita sensualidade. sem falar numa das melhores perseguições de carro do cinema contemporâneo (com a zöe bell, dublê da uma thurman em kill bill, amarrada no capô do carro) e numa abertura que se não for a melhor, certamente entra no top 10 de melhores aberturas/créditos iniciais da história do cinema. a cena final também é ÉPICA.

quentin tarantino prova que não apenas é um nerd aficionado por cultura pop underground como também sabe utilizar todas essas refêrencias a seu favor sem deixar a originalidade de lado. cria um ambiente todo próprio e se coloca como o diretor que melhor faz filmes para as massas atualmente. uma pena que hollywood esteja cada vez mais infantil e não saiba reconhecer a contribuição do cara para cultura pop contemporânea. enquanto isso a molecada engole filmes ensossos com toda a punhetagem que só milhões de dólares gastos em efeitos especiais conseguem produzir. e o pior: achando tudo isso a última bolacha do pacote.

a trilha sonora, outro ponto forte dos filmes do diretor, é sensacional e mais uma vez é peça fundamental na trama. como, por exemplo, quando uma das garotas diz que pete townshend quase largou o the who para entrar para o grupo Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich. diálogo este que acontece, é claro, enquanto a música do grupo toca no talo e as garotas jogam seu carro de frente com o do maníaco vivido por kurt russell.

aliás, este texto era só para falar da trilha sonora mas acabei me empolgando.

além de nomes conhecidos como ennio morricone e t-rex a trilha é quase toda formada por one hit wonders dos anos 60 e bandas obscuras de rock e soul que tarantino venera. aliás, você sabia que ele mandou construir um quarto na casa dele em forma de cassino só para guardar seus discos de vinil? imagina cada pérola que esse cara não tem escondida na discoteca.

“death proof” sequer foi lançado no brasil, nem em dvd e muito menos nos cinemas. segue o tracklist da trilha do filme:

“The Last Race” — Jack Nitzsche
“Baby, It’s You” — Smith
“Paranoia Prima” — Ennio Morricone
“Planning & Scheming” — Eli Roth & Michael Bacall (diálogo)
“Jeepster” — T Rex
“Stuntman Mike” — Rose McGowan & Kurt Russell (diálogo)
“Staggolee” — Pacific Gas & Electric
“The Love You Save (May Be Your Own)” — Joe Tex
“Good Love, Bad Love” — Eddie Floyd
“Down In Mexico” — The Coasters
“Hold Tight” – Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich
“Sally and Jack (From the Motion Picture Blow Out)” — Pino Donaggio
“It’s So Easy” — Willy DeVille
“Whatever-However” — Tracie Thoms & Zoe Bell (diálogo)
“Riot In Thunder Alley” — Eddie Beram
“Chick Habit” — April March

destaque para o cover sensacional que a cantora april march fez de “laisse tomber les filles”, do serge gainsbourg. a versão em inglês ganhou o nome de “chick habit” e é dos raros casos em que a cover é tão boa (ou melhor) quanto a original. compare:

primeiro a original, cantada pela france gall

depois o cover feito pela april march 

enfim, gastei todas essas linhas desnecessárias para falar só uma coisa: tarantino é gênio.

fim de papo.



No Responses Yet to “discoteca – “death proof”, de quentin tarantino”

  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: