melhores discos nacionais de 2009 #2 – “no chão sem o chão”, romulo fróes

12jan10

“no chão sem o chão” é o terceiro álbum do cantor paulista romulo fróes, taxado de sambista indie, membro de uma “nova mpb”. rótulos que parecem não agradar o compositor. justamente para se livrar de tais amarras ele resolveu fazer um álbum dividido em duas sessões: “cala boca já morreu” (a primeira e mais roqueira) e “saiba ficar quieto”, a segunda, mais puxada para o samba. assim como em seus discos anteriores romulo conta com a ajuda dos artistas plásticos clima e nuno ramos, responsáveis pelas letras do álbum.

como a maioria dos álbuns duplos, praticamente tudo poderia ser resumido em apenas um disco simples. quase 50% do álbum poderia ser limado que não sentiríamos falta alguma. “cala boca já morreu” é de um cabecismo quase insuportável. músicas completamente impalpáveis e abstratas. tudo isso semeado com uma verborragia onanista capaz de corar qualquer marcelo camelo.

o tom masturbatório se acentua com a utilização de clichês que dão crédito às chacotas que sempre vem à tona quando o assunto é mnpb, música nada popular brasileira.

você sabe: quando o cara começa a querer fazer poesia “pra frentex” em letra de música e a usar termos como “samba na avenida”, “betume”, “cetim”, “alvorada”, “pierrot” e coisas do tipo você sabe que não dá para levar a sério, uma vez que são terminologias arcaicas e que fogem quase que completamente da realidade do ouvinte. servem mesmo apenas como alegoria ou então saudosismo barato e apenas revelam um tom passadista, artificial e, por vezes, irrelevante. licensa poética quase sempre é mera desculpa. 

zzzZZZzzzZZZzzz….zzzZZZzzzZZ…

mas tudo parece propositalmente feito para fundir a cabeça do ouvinte. prova de que o cantor tem total discernimento do que está fazendo é a letra irônica de “saiba ficar quieto” onde meio que já prevê as críticas que o álbum poderia sofrer (e de fato sofreu).

é mesmo na segunda metade que romulo faz sua grande obra. não apenas por evitar quase tudo explicitado na primeira parte como, de fato, o cantor parece habitar um ambiente mais confortável. as letras soam mais verdadeiras e até minimalistas como, por exemplo, na impecável “ela me quer bem”.

as participações especiais também são um capítulo à parte. todas as cantoras convidadas (mariana aydar, lulina, nina becker e andreia dias) se saem muitíssimo bem e dão um brilho a mais à obra. ainda participam a lenda da guitarra lanny gordin e o trombonista bocato, entre outros.

o grande mérito de “no chão sem o chão” é que ele se apresenta explicitamente como uma proposta e, em razão disto, caminha intencionalmente por vias tortuosas. na primeira metade a idéia é experimentar com letras nonsense, cheias de quinas e instrumentação mais puxada para o rock torto de guitarras ruidosas, muito embora deixem a sensação de que não foram longe o suficiente. fica sempre uma quase certeza de que as guitarras poderiam ser um pouco mais altas, mais sujas, mais perigosas. mas é preciso ter colhões para fazer um disco como esse. e fróes mostrou que os tem.

o álbum se justifica pela sua segunda metade e por mostrar que existem sim pessoas que querem se arriscar, querem ir a lugares desconhecidos, querem andar no escuro. vivemos a era onde o cala boca já morreu faz tempo.

quem realmente quer, vai lá e faz. e romulo fez.

romulo fróes – “no chão sem o chão”

1ª sessão – “cala boca já morreu”

01. Do ponto do cão
02. A anti-musa
03. Destroço
04. Para quem me quer assim
05. Deserto vermelho
06. Anjo
07. Minha casa
08. Vai
09. Qualquer coisa em você mulher
10. Sei lá
11. Pierrô lunático
12. Amor antigo
13. Mochila
14. Peraí
15. De Adão pra Eva
16. Só você faz falta

2ª sessão – “saiba ficar quieto”

01. Para fazer sucesso
02. Ela me quer bem
03. Esse aí
04. O que todo mundo quer
05. Caia na risada
06. Cala boca já morreu
07. Manda chamar
08. Dia tão cinzento
09. Ou nada
10. Caveira
11. Fui eu
12. Gelatina
13. Se eu for
14. Pedrada
15. Uva de caminhão
16. Astronauta
17. Saiba ficar quieto

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