sobre música

04jul09

para franz, é a arte que mais se aproxima da beleza dionisíaca concebida como embriaguez. dificilmente nos aturdimos com um romance ou um quadro, mas podemos nos inebriar com a “nona” de bethoven, com a “sonata para dois pianos e percussão” de bartók, e com uma canção dos beatles. franz não faz distinção entre a música erudita e a música ligeira. essa distinção lhe parecia hipócrita e ultrapassada. gostava igualmente do rock e de mozart. para ele, a música é libertadora: ela o liberta da solidão e da clausura, da poeira das bibliotecas, e lhe abre no corpo as portas por onde a alma pode sair para confraternizar. gosta de dançar e lamenta que sabina não compartilhe com ele essa paixão.

estão jantando num restaurante e os alto-falantes acompanham sua refeição com uma música barulhenta e ritmada. sabina diz: ‘é um círculo vicioso. as pessoas se tornam surdas porque aumentam cada vez mais o volume. mas, como se tornam surdas, só lhes resta aumentar o volume’.

‘você não gosta de música?’, pergunta franz. ‘não’, diz sabina. depois acrescenta: ‘talvez se vivesse numa outra época…’. e pensa na época de johann sebastian bach. em que a música se assemelhava a uma rosa desabrochada na imensa planície do silêncio coberta de neve. o barulho sob a máscara da música a perseguia desde que ela era muito jovem. quando estudava na escola de belas artes, tinha que passar férias inteiras no canteiro da juventude, como se dizia então. os jovens ficavam instalados em barracas coletivas e trabalhavam na construção de altos-fornos. das cinco da manhã às nove da noite os alto-falantes cuspiam uma música ensurdecedora. tinha vontade de chorar, mas a música era alegre e não se podia escapar a ela em nenhum lugar, nem nos banheiros, nem na cama embaixo das cobertas, havia alto-falantes em toda parte. a música era como uma matilha de cães soltos sobre ela.

 pensava então que o universo comunista era o único em que reinava essa barbárie da música. no exterior, constatou que a transformação da música em barulho é um processo planetário que leva a humanidade a entrar na fase histórica da feiúra total. a feiúra no sentido absoluto começou a se manifestar pela onipresença da feiúra acústica: os automóveis, as motos, as guitarras elétricas, os marteletes, os alto-falantes, as sirenes. a onipresença da feiúra visual não demoraria a aparecer.

jantaram, subiram para o quarto, fizeram amor. depois, no limiar do sono, as idéias começaram a se embaralhar na cabeça de franz. lembrou-se da música barulhenta do restaurante e pensou: ‘o barulho tem uma vantagem. em meio a ele não se ouvem as palavras’. desde a mocidade, não fazia outra coisa senão falar, escrever, dar cursos, inventar frases, procurar fórmulas, corrigi-las, logo as palavras não tinham mais nada de exato, seu sentido se esfumaçava, perdiam o conteúdo e delas sobravam apenas migalhas, partículas, poeira, areia, que flutuava no cérebro dele, que lhe dava enxaqueca, que era sua insônia, sua doença. e sentiu então uma vontade confusa e irresistível de uma música imensa, de um barulho absoluto, de uma bela e alegre algazarra, que englobaria, inundaria, destruiria todas as coisas, que anularia para sempre a dor, a vaidade, a insignificância das palavras. a música era a negação das frases, a música era a antipalavra! tinha vontade de ficar com sabina num longo abraço, de calar, de não pronunciar mais uma só frase e de deixar o prazer confluir para o clamor orgíaco da música. nessa bem-aventurada algazarra imaginária, adormeceu.

* milan kundera em “a insustentável leveza do ser”.

sem mais.



3 Responses to “sobre música”

  1. 1 christianjafas

    Olá,

    estou reativando meu blog sobre cinema: o Imagem em Movimento.

    Fiquei uns anos sem escrever, mas agora estou voltando.

    um abraço,

    Christian

  2. 2 Anny

    um dos livros com as melhores reflexões que já li. completamente fascinante, ótima escolha (:

    • 3 Cadu

      anny, vc tem toda a razão. o livro é simplesmente GENIAL.

      volte sempre.😉


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