this is what you get when you mess with us

25mar09

thom-yorke_sao-paulo

sabe quando você assiste a documentários sobre música, específicamente rock, e fica imaginando como seria se você estivesse lá naquele momento, naquela época para sentir se a vibe era realmente essa coca-cola toda? sabe quando aquele seu tio hippie-aposentado chega em você e diz que os anos 60 é que eram legais, que naquela época é que tinha música boa, que ele sim testemunhou a história? sabe aquela invejinha que dá quando ouve alguém falar que assistiu o led zeppelin ao vivo nos anos 70′, ou que assistiu ao david bowie naquela turnê de 72′ ou que simplesmente conheceu algum beatle? pois é, eu posso dizer que não tenho mais inveja dessas pessoas (a não ser pelo fato de não ter conhecido nenhum beatle… ainda). hoje eu posso dizer que sim, eu presenciei a história no momento em que ela acontecia. e posso dizer que vi a maior banda do planeta ao vivo e – detalhe importante – em seu auge. posso dizer, sem medo, que esse é o momento mais importante da música desde que kurt cobain deu um tiro na testa. mas vou começar pelo começo.

além dos shows, o que mais tomou os noticiários no dia seguinte ao festival foi o caos da organização, com gente levando mais de três horas para pegar um táxi e sair das imediações da chácara do jóckey. eu confesso que só me dei conta da dimensão do caos no dia seguinte. enquanto estive lá até achei a coisa bem organizada apesar de alguns parênteses: a bebida era cara; água no meio da galera custava R$5; mesmo com uma garoinha leve, durante o show dos los hermanos, as imediações do bar se tornaram pura lama com poças do tamanho de uma piscina; depois do show do radiohead, o bar posicionado à esquerda do palco não tinha mais água, ou seja, quem tinha ficha para água morreu com elas na mão, já que não trocavam por nenhuma outra bebida. ainda ouvi o absurdo de um atendente respondendo a pergunta de uma menina com duas fichas na mão. “o que eu faço com isso?”, pergunta a menina mostrando suas fichas que valem duas garrafas d’água. o cara simplesmente balança os ombros e manda a pérola: “agora só dá pra bater bafo com essas figurinhas aí”. a segurança também não era lá essas coisas. não vi nenhum PM circulando por lá. a saída do local levou uns bons 30 minutos e a massa de 30 mil pessoas descendo uma ladeira gigantesca parecia a marcha dos pinguins ou como disse um carinha ao meu lado: “parece um bando de zumbis. só falta sair gritando “brain!!! brain!!! brain!!”.

mas também houveram pontos positivos. acho que nunca ouvi um sistema de som tão potente e nítido na minha vida. nada de logotipos espalhados pelo local ou propagandas corporativistas tentando te enfiar celular, cerveja ou qualquer outra coisa goela abaixo. os telões também tinham boa resolução (apesar de terem dado pau em certos momentos durante o radiohead) e as câmeras do multishow ficavam à esquerda do palco sem atrapalhar a visão do público. a pontualidade também foi outro ponto positivo. os los hermanos entraram exatamente às 18h30 mandando “todo carnaval tem seu fim”.

apesar dos comentários sobre o show do rio achei os caras bem animados e o som estava alto e claro (ao contrário da acusação do bruno medina que disse que a organização sabotou o som do grupo no rio só porque eram banda de abertura). óbvio que não foi tão legal quanto os outros trocentos shows que eu já vi do grupo. levando em conta que foi uma reunião assumidamente caça-níqueis e que tiveram poucos ensaios não foi nada decepcionante. eles sabem que quando voltarem para valer vai ter que ser com músicas novas.  zero a zero, portanto. o melhor eram os pedidos da galera entre uma música e outra: “toca mallu!”, “tchubaruba!”. cheguei a ouvir até um “pedófilo!” certa hora.

muita gente foi para o fundão depois do show deles. melhor pra mim que consegui chegar mais perto do palco. ao meu lado tinha um grupinho de americanos que não fazia idéia de quem era esse tal de kraftwerk. uma garota do grupo disse que gostava de “ana júlia” mas que tinha ido mesmo ao festival por causa do radiohead. depois que eu expliquei que o kraftwerk era considerado os beatles da música eletrônica e que eram os pais, ou avós, do funk carioca ela começou a se animar com a idéia de não sair para buscar cerveja. foi só o show dos alemães começar para o queixo da garota ir parar nos joelhos. não só os dela. um amigo da moça não parava de mandar “genius! this is genius!”. o setlist dos alemães foi o mesmo apresentado dois dias antes no rio, abrindo com “man machine”. detalhe que a música deu pau em certo momento.

depois seguiram-se a dobradinha “numbers”/”computerworld”, “tour de france”, “autobahn”, “the model”. até aí você olhava para os americanos e eles nem piscavam. quando chegou “radioactivity” dois deles começaram a se abraçar e um outro não parava de repetir: “this is my new favorite song! I’m sure this is my new favorite song!”. hilário. para falar a verdade, todo mundo pirou quando eles sairam do palco para dar lugar a manequins robóticos em “the robots”. a piada do dia foi: “eles não faziam nada mesmo. aposto que estavam no msn ou no orkut”. ahaha. terminaram com talvez o primeiro funk carioca da história: “music non stop”.

analisando friamente o line-up do festival nota-se que, talvez, não se conseguiria reunir artistas tão significativos. um meio que completa o outro. os los hermanos têm uma trajetória parecida com a do radiohead. ambas as bandas fizeram sucesso com seus discos de estréia a partir de um hit radiofônico (“ana júlia” e “creep”), não aguentaram a pressão do hype e decidiram partir por caminhos não-convencionais alcançando, desta forma, prestígio e uma massa de fãs. fãs não, fiéis seguidores.

nenhuma das três bandas possui o arquétipo usual das bandas pop. nenhum de seus integrantes é bonitinho, ou se veste na moda, ou é drogadito. ambas são formadas por geeks de faculdade. weirdos. o kraftwerk a mesma coisa. nunca se renderam aos paradigmas da indústria, sempre se mantiveram à margem, fazendo apenas o que querem fazer. e dá para notar a influência direta dos alemães no som do radiohead.

terminado o show do kraftwerk começa o empurra-empurra para chegar o mais perto possível do palco. quando a banda surge mandando “15 step” a platéia já estava ganha. depois, para derrubar todas as estruturas, já queimaram “there there” e “the national anthem” logo de cara seguido de “all i need”“pyramid song” (com o johnny greenwood tocando guitarra com um arco de violino). 

e o que dizer daquele palco minha gente? uma das coisas mais impressionantes que eu já vi na vida. e digo mais: uma das produções mais incríveis que este país já viu. a platéia também não se fez de rogada e gritava o nome de cada integrante a cada pausa. nunca vi um clima tão legal durante um show na minha vida. talvez no show do oasis em 2006 a coisa tenha chegado perto. mas naquele caso a vibe era de celebração e curtição. aqui a sensação era mais de admiração e embasbacamento. 

na última hora tiraram “wolf at the door” pra botarem “a música do carlinhos” e sacaram o revival da fase roqueira para quebrar as pernas da galera com “creep”.

embasbacamento. essa talvez seja a palavra que melhor define o que é um show do radiohead. e você não fica embasbacado apenas com a beleza e a força que as músicas adquirem ao vivo. você fica embasbacado ao perceber o quanto você é estúpido. o quanto a humanidade é estúpida. o quanto de estupidez existe na música pop hoje e sempre. é ao vivo que você mede o grau de importância que certas canções possuem e que mesmo que você já as tenha ouvido zilhões de vezes, ali naquela hora elas conseguem fazer mais sentido ainda. mais do que isso, elas te questionam, te provocam, te incitam a repensar tudo o que é certo e errado. se existe certo e errado.

só quem passou por isso sabe o que são 30 mil pessoas cantando em uníssono “karma police” ou a genial “paranoid android”. nesta última o público continuou cantando mesmo depois que a música terminou fazendo thom yorke retomar o refrão apenas com seu violão antes de emendar “fake plastic trees” e tirar lágrimas de muitos marmanjos na platéia.

se o ok computer é o resumo pop da era pós-industrial (resumindo em um só disco toda a carreira do kraftwerk, por exemplo), um show da turnê do in rainbows (não pelo disco em si, mas pelos paradigmas exponencialmente questionados por ele) é o que de mais moderno e pertinente uma banda pop seria capaz de fazer hoje em dia. cheio de refêrencias pop que passam pelo cinema, literatura e a própria música pop o show oferece alta tecnologia para questionar o vazio humano através de lindas melodias torturantes. muito mais do que  “música para se matar”, como alguns errôneamente se contentam em definir. e todas essas refêrencias não fazem a banda cair na vala do “cabecismo” como seus discos podem supor. eu confesso que era um desses que achavam a banda “inteligente demais” em certas ocasiões. mas ao vivo toda essa melancolia kafkiana faz sentido, acredite.

e faz sentido principalmente porque não utiliza o aparato hi-tec para fazer frufru, não é simplesmente o belo pelo belo. tudo ali tem um por quê. dos tubos que vão do chão ao teto criando um cenário que ao mesmo tempo remete a uma caverna (alguém já ouviu falar do mito da caverna? google it.) ou a um arco-íris tridimensional, da iluminação que ora cria nos espectadores a sensação de estarmos dentro do “2001” de kubrick (com a iluminação espacial de “nude”), ora estarmos presenciando a nave-mãe que vem nos salvar ou destruir (“climb up the walls” e “the gloaming”), ou quem sabe até estarmos em um show de música pop.

o fato de não terem tocado “no surprises” ou “just” ou qualquer coisa da fase mais roqueira da banda, não modifica em nada a experiência. como deixar de fora a sequência de “you and whose army” (dedicada aos “fucking yankees”) em que thom yorke senta ao piano e canta olhando para um misto de câmera de segurança com webcam enquanto seu olho esbugalhado toma conta do telão numa das sequências mais bonitas do show que remetem ao mesmo tempo tanto a “um corpo que cai” (hitchcock) quanto à delicadeza de charlie chaplin ao mesmo tempo que remete à cena de, novamente, “2001” quando o astronauta acelera rumo a júpiter (que eu acho que também inspirou o clipe claustrofóbico de “no surprises”)? poucos sacaram a refêrencia enquanto thom yorke fazia caras e bocas e saia do frame em câmera lenta.

para dar mais ainda um ar de contemporaneidade, ousadia e esquisitisse durante algumas músicas johnny greenwood sintonizava um rádio e sampleava ao vivo trechos da transmissão no meio das canções. durante “climb up the walls” e “the national anthem”, por exemplo dava para ouvir os locutores da band news de campinas e outras rádios da capital paulista. muita gente quase caiu pra trás quando reconheceu frases como: “…112 milhões serão beneficiados com essa medida do governo…” ou “… alexandra com é que um profissional que…” repetida em loop ad infinitum.

e quando eu disse, no começo do texto, que eu vi a história acontecendo não me referi ao show de são paulo específicamente. aposto que eles já fizeram shows até melhores que esse durante a turnê. me referia a todo o zeitgeist em questão, ou seja, a todas as circunstâncias que rodeiam um show do radiohead. podem existir várias bandas excelentes no pop atual, mas nenhuma é tão atual e pertinente quanto o radiohead, pois não fazem apenas música, fazem ARTE. assim mesmo com todas em maiúscula. fazer 30 mil pessoas (algumas chorando de molhar a camiseta) gritarem a plenos pulmões “sou estranho e não faço parte disso aqui” é um lance MUITO FODA. e não é para qualquer um. nem vou falar como o show me fez ter esperança na música pop e sentir alegria de estar vivo pra não ficar muito piegas.

a história acontecendo está no fato de ter sido agora, neste momento. daqui a, sei lá, cinco anos eles podem não estar sendo tão pertinentes. se existe um show que merece ser visto HOJE é este. sem dúvida. aos que ainda não entendem a banda só digo uma coisa: o tempo é a melhor sabedoria.

Set Lists

Kraftwerk

“Intro”
“The man-machine”
“Planet of visions”
“Numbers”
“Computerworld”
“Tour de France”
“Autobahn”
“The model”
“Les mannequins”
“Radioactivity”
“Tee”
“The robots”
“Aerodinamyk”
“Musique non stop”

Los Hermanos

“Todo Carnaval tem seu fim”
“Primeiro andar”
“O vento”
“Além do que se vê”
“Condicional”
“Morena”
“Andar”
“A outra”
“Cara estranho”
“Deixa o verão”
“Assim será”
“Cher Antoine”
“O vencedor”
“Retrato pra Iá-Iá”
“Casa pré-fabricada”
“Último romance”
“Sentimental”
“A flor”

mais vídeos aqui.



2 Responses to “this is what you get when you mess with us”

  1. 1 rodrigo

    ah, pode falar q c tava era querendo xavecar a mocinha americana… huahuahauuahaua.

    cheers.

  2. 2 Pedro

    Traduzido em palavras os meus sentimentos, emoções e pensamentos, que são muito parecidos com os seus, talvez pela própria atmosfera que o show cria.

    “O tempo é a melhor sabedoria.”

    Obrigado!

    PS.: Parece até que depois desse show, muitas coisas perdem o sentido e aquele vazio citado se materializa. Não só o vazio, mas a alegria de viver de uma maneira diferente, simbolizada pela própria banda :.


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