punk 2.0

27fev09

outro dia falei aqui sobre games, mais precisamente sobre a versão “paraguaia” do international superstar soccer que rolava nos anos 90. daí lembrei de um textinho que fiz em 2007, ainda na época da faculdade, sobre uma molecada de 14 nos, eu disse QUATORZE ANOS de idade, que faz – na raça – a versão brazuca do winning eleven. o texto ainda fala de uma galera que transmite jogos de futebol pela internet e de como a internet ajuda a passar adiante o lema punk do it yourself.

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Filhos da (R)evolução

A tecnologia torna as pessoas cada vez menos passivas e as grandes corporações cada vez mais perdidas. 

A tecnologia sempre foi um instrumento catalisador utilizado para ampliar o modo como o ser humano se expressa e, conforme o tempo caminha, novas tecnologias vão expandindo este poder. Se nos primórdios do século XX invenções como o cinema, a TV, a guitarra elétrica, a telefonia e os primeiros computadores fizeram revoluções é para este último item que o século XXI parece estar acenando com maior vivacidade.

Antigamente as pessoas faziam revoluções indo às ruas, fazendo piquetes, queimando sutiãs, hoje em dia elas ficam atrás de uma tela de computador. Muitas vezes não é necessário ser nenhum gênio da informática para que essas tais “revoluções digitais” sejam feitas, basta apenas um pouco de visão e tempo livre.

E as possibilidades que a tecnologia vem criando conforme o tempo passa são tão grandes que hoje em dia pessoas comuns conseguem, apenas utilizando recursos que qualquer indivíduo que possua um computador tem acesso, até mesmo transmitir jogos de futebol e criar suas próprias redes de televisão na web. Essa tendência parece ter se disseminado com mais força entre os amantes de esportes. No Brasil, por exemplo, pode-se encontrar facilmente webtvs de vários clubes do futebol nacional criadas por membros de suas torcidas. O Atlético Mineiro possui a Galo WebTV, o Sport de Recife a SportCast e os jogos do Corinthians podem ser vistos através da TV Coringão, por exemplo.

A idéia é transmitir os jogos do time do coração àqueles que não têm acesso a canais pay-per-view ou sofrem com a falta de transmissão de alguns jogos pelas redes abertas. Para isso, basta ter uma placa de captura de TV instalada no computador e uma boa conexão à internet. A maioria destas webtvs utilizam um programa gratuito chamado SopCast (www.sopcast.org), que nada mais é do que um programa P2P (abreviação em inglês de “peer-to-peer” ou “par-a-par” em tradução livre para o português, que é uma tecnologia capaz de estabelecer uma espécie de rede de computadores virtual onde cada computador compartilha fragmentos de um arquivo) que permite criar canais de televisão pela internet e transmiti-los em streaming (tecnologia que permite o envio de informação multimídia através de “pacotes” utilizando uma rede de computadores), ou seja, quanto mais pessoas estiverem conectadas assistindo aos jogos, mais rápida é a transmissão.

Essas webtvs, além de transmitirem os jogos também apresentam conteúdo variado quando as partidas não acontecem. A AJTV, que transmite todos os jogos do São Paulo, por exemplo, também produz programas com informações sobre o clube. “Temos uma webtv com 10 horas de programação semanal, com conteúdo próprio e variado onde 90% deste é destinado a exaltar o SPFC. Dentro disso estão programas criados por nós, como mesas-redondas, além dos VT’s dos jogos exibidos ao vivo”, diz AJ Oliveira, criador do site “Sempre Tricolor” e “narrador oficial” da AJ TV. “A maioria esmagadora do nosso público é de pessoas do exterior, que não têm condições de serem clientes de nenhuma TV por assinatura”, completa.

Como se vê, o público dito leigo consegue ter mais visão de mercado e de audiência que as grandes redes de televisão e os próprios clubes. Será que eles nunca pensaram em criar este tipo de alternativa aos torcedores transmitindo os jogos pelo site oficial do clube? Por que as redes de televisão não oferecem o mesmo serviço? Estariam as grandes instituições subestimando a internet ou não sabendo utilizar, ou utilizando mal a tecnologia em benefício próprio? “Acho que tem um pouco disso. Mas no caso do SPFC, certamente, o principal entrave é o fato do clube (assim como todos os outros), ter cedido todos os direitos de exibição de sua imagem, para as organizações Globo. Um completo absurdo”, indigna-se AJ.

Dito isto, é evidente que a tecnologia (a internet em especial) age como um fator ‘democratizador’ de conteúdo e informação a serviço da grande massa. “Sem dúvida, acho que a principal conquista da internet é isso: democratizar conteúdo. Jamais seremos concorrência para as TV’s pagas. Quem em sã consciência trocaria uma imagem digital na TV por uma tela 320×320 a 128kbps? Nosso intuito é permanecer como alternativa a quem quer entretenimento esportivo e despojado com parcialidade”, diz AJ.

Tamanha é a democratização proporcionada pelos avanços tecnológicos que até mesmo jogos eletrônicos vêm entrando nesta linha do “faça você mesmo”. Devido ao histórico de ser sempre deixado de lado pela grande indústria quando se trata de produtos tecnológicos de última geração, o Brasil parece ser o palco ideal para que esta atitude tome corpo. Os aparelhos celulares, eletrodomésticos, consoles de games entre outros produtos chegam sempre com certo atraso ao país. Quando a coisa começa a “bombar” no Brasil, na Europa e EUA já são coisa do passado. Na maioria das vezes que novidades são lançadas aqui e no primeiro mundo simultaneamente, o preço do produto na versão nacional é totalmente irreal para o bolso do brasileiro médio. Apenas aqueles que possuem um poder aquisitivo maior têm condições de se manterem atualizados tecnologicamente ao mesmo tempo que americanos, europeus e japoneses.

Pensando nisso, uma molecada esperta resolveu arregaçar as mangas, calibrar o mouse e tentar mudar essa realidade. Neste caso o termo “molecada” cai como uma luva, pois eles são realmente muito jovens, com média de idade de 17 anos.

O Brazukas Team é um grupo de garotos fãs do game de futebol “Winning Eleven Pro Evolution Soccer” que, decepcionados com o fato de o game original não conter equipes brasileiras, resolveu criar “patchs” para saciar a sede dos torcedores brasileiros.

“Patchs” são atualizações ou aprimoramentos que podem ser feitos para um software com o objetivo de adicionar novas fases, cenários ou até personagens a um game, por exemplo. Grosso modo, pode-se dizer que são “remendos” no game original. “Melhoramos o game de um jeito brasileiro, colocamos times do Brasil, algo que a nossa ‘amiga’ Konami [empresa fabricante do game] não introduz na versão original. Geralmente inserimos equipes das séries A e B do Brasileirão com uniformes perfeitos e até faces quase reais de jogadores”, diz Filipe Henrique de 14 anos de idade e membro da equipe Brazukas responsável por introduzir todo o áudio ao game modificado.

Os patchs são feitos a cada seis meses, geralmente no início das temporadas européia e brasileira pois é nesta época que as equipes reais já estão com seus elencos definidos e uniformes apresentados fazendo com que os patchs deixem o game original meio ultrapassado. Cada patch leva, em média, dois meses para ser produzido e a similaridade com as equipes reais impressiona. Além de faces de jogadores, os uniformes são copiados nos mínimos detalhes, com patrocinadores e distintivos idênticos aos da vida real. Além disso, é adicionada locução de narradores e comentaristas famosos como Galvão Bueno, Neto e Éder Luis, por exemplo.

Vale ressaltar que os membros do Brazukas Team não possuem nenhum conhecimento específico em criação de games ou algo parecido. “A maioria tem conhecimento básico de computação, eu mesmo, comecei a entender realmente de programas de edição após entrar na equipe. Utilizamos programas comuns, que qualquer pessoa pode editar em casa, como o Photoshop, por exemplo.”, diz Filipe.

Embora cada membro do grupo esteja em um canto do país a comunicação se dá facilmente através da internet. A interatividade com o público alvo da equipe Brazukas através de fórums e comunidades sociais na internet também é fundamental para a criação dos patchs. “Os membros da comunidade nos ajudam bastante postando gritos da torcida de seus clubes para inserirmos no jogo. Além disso, eles postam músicas que gostariam que estivessem nos patchs e fotos de uniformes recém lançados, que inserimos através do Photoshop”, conta Filipe.

Os patchs podem ser adquiridos gratuitamente através do site da equipe Brazukas, porém muitas pessoas que baixam as atualizações acabam vendendo-os em lojas de games e camelôs pelas ruas do país todo. “Eu acho ridículo isso, pois estão ganhando crédito pelo que a gente faz. Então, eles revendem os jogos, só que com outro nome”, diz Rômulo Bortolozzo que também tem 14 anos e é o responsável pela base de dados dos times europeus.

Tendo em vista a forma como essa democratização está sendo feita principalmente via web, o assunto pirataria se torna inevitável. “Eu acho que o que nós fazemos não é pirataria, pois a gente faz isso porque gosta e ninguém da equipe ganha dinheiro pela criação”, rebate Rômulo. “Apenas editamos o jogo, tanto é que não lançamos o game em si, apenas as partes editadas. Se as pessoas apenas baixassem os nossos jogos ficaríamos mais felizes, ao invés de os encontrarmos em lojas que nem reconhecimento do nosso trabalho possuem. Temos consciência do que estamos fazendo, quem deveria ter medo são as lojas que copiam e vendem sem autorização”, completa Filipe.

 AJ Oliveira também parece estar de acordo com o pensamento da equipe Brazukas. “Não consideramos em absoluto que o que fazemos seja pirataria. Até porque, com exceção das imagens dos jogos, tudo o que fazemos é original e sem precedentes. A web tem inúmeras possibilidades e a TV é apenas mais um plus no robusto menu de alternativas que ela oferece”, diz AJ. “O conhecimento é para ser de todos, já temos conhecimento de termos inspirado outros sites a surgirem com esse propósito e nos dá orgulho saber que fazemos algo pioneiro e que agrade a tantos. Esperamos que surjam cada vez mais iniciativas como essa”, completa.

Pelo que parece, a revolução digital está apenas começando.



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