o pop enquanto religião

04dez08

estava dando uma fuçada no hotsite que a folha criou para comemorar os 50 anos da ilustrada e encontrei um texto bem interessante que deve estar no livro comemorativo lançado esta semana. trata-se de um texto sobre michael jackson, de 1984, assinado por pepe escobar. dificilmente um artigo como esse seria publicado hoje em dia (principalmente na ilustrada) já que a imprensa brasileira vai ficando cada vez mais careta com textos seguindo sempre a mesma fórmula. abaixo um trechinho:

“Sou mais popular do que Cristo”, desejou John Lennon nos anos 1960, sem imaginar que Michael Jackson realizaria o sonho. Reinava a letargia no Céu. Nenhum hit memorável nas FMs do Paraíso. Tédio geral. Deus, cansado, de bengala, já tinha pedido: “Give me a break” (em inglês, a língua universal). Não lhe deram nem break, nem soul, nem rock: deram Reagan, Maluf, guerra nuclear. Era demais para a sua cabeça. Pediu férias e foi descansar embaixo de uma palmeira no Jardim do Éden. Um dia, teve uma idéia brilhante: “Vou voltar pra Terra. Vou me encarnar em um garoto do povo e botar todo mundo pra dançar. Talvez assim eles me entendam. Além disso, lá embaixo o negócio está fervendo”. (…)

(…) Chegou arrasando. Bastou gravar um LP e três vídeos. Deu no que deu. Em um ano e meio, fez o que ninguém conseguiu em dois mil anos. Manteve, é claro, algumas características básicas. Um fenômeno, um exemplo para a humanidade. Mas adaptou-se aos novos tempos. Afinal, era um longo caminho do Sermão da Montanha à era do videoclipe. Sua nova imagem foi construída cuidadosamente pelos especialistas de marketing do Paraíso. Estava forjado como um símbolo da cultura dos anos 1980, violentos, dessacralizados, pré-apocalípticos. O ídolo para todos. Portanto, nada de transgressão. Bom moço, conservador, ambíguo, até mesmo esquizo-paranóico. Nada de sexualidade expressa. Um garoto tímido (…) Foi entendido na hora. A hóstia de vinil vendeu 35 milhões de cópias. Através dos três vídeos, gerou milhões de clones e seguidores em todos os países do mundo. Da praça São Pedro ao Cassino do Chacrinha. Ganhava 2,10 dólares por disco. Vendia mais disco do que hambúrguer. Ganhou todos os prêmios, todos os elogios, todos os adjetivos, todas as capas de revista de todas as revistas do planeta. Alimentou uma gigantesca indústria paralela de mitos, modas e mexericos. E quando contemplou o novo império, de sua Disneylândica mansão na ensolarada Califórnia, rodeado de ursinhos de pelúcia, manequins de gesso e fliperamas multicoloridos, resolveu comemorar a vitória (…)

(…) Seu prestígio chegou aos céus. Apesar da mancada de gravar comerciais para a Pepsi-Cola com sua própria música “Billie Jean”. Talvez JC/ Michael estivesse embriagado com tanto poder. Ninguém sabe, porque ninguém sabe o que se passa nesse frágil coração. JC/ Michael virou o Little Big Brother do planeta Terra, em todas as telas, em todas as ruas, com milhões de clones encantados o adorando e imitando em todas as partes do planeta. Propuseram Steven, o pai do “E.T.”, para o FMI. Propuseram Michael para a ONU. Era a definitiva vitória da jacksonmania. No dia seguinte, animado, Deus desceu do Céu e assinou contrato com a CBS”.

deve tá bom, este livro. vou atrás.



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