a sangue frio

12set08

acho que esta é a melhor maneira de explicar como bill callahan se porta em cima de um palco. bill, também conhecido como smog (seu projeto de um homem só), esteve ontem em ribeirão preto para gelar a espinha e o coração de quem se dispusesse a ouvir sua música. e é exatamente isso que acontece com quem ouve canções como “rock bottom riser” numa das noites mais quentes do ano. para se ter noção, durante a tarde chegou a fazer 38ºC na cidade. nada mais adequado então. o show faz parte da turnê de divulgação de “woke on a whale heart”, seu trabalho mais recente.

como bom gringo que é bill já chegou pedindo desculpas pelo “rosto vermelho e inchado” já que tinha passado o dia todo num tal de “penguin bar”. era a piada que faltava. essa contradição entre quente e frio seguiria durante todo o show. por exemplo, logo quando o cantor é anunciado e entra no palco a estranheza já dá sinais de que também vai se fazer presente. bill entra, ninguém aplaude. diz boa noite e ninguém responde. ele olha desconfiado a inércia da platéia e tenta entender.

algumas músicas  depois quando o público parecia estar esquentando e bill começava a ficar mais a vontade o som desaparece e as luzes se apagam. breu total. gelo. isso tudo durante “sycamore”, a aquela cujo a letra diz: “when all you want to do is be a part of the fire/ all you want to do is be the fire part of fire”. sintomático.

menos de um minuto depois quando a energia volta o cantor ainda brinca: “se vocês não queriam ouvir essa música era só avisar que eu não tocava”, isso com aquela voz de darth vader que ele tem. com mais de vinte anos de carreira ele já deve estar escaldado com situações como essa. pessoalmente ele parece mais simpático do que transparece em vídeos e fotografias. quase nunca sorri, tem o olhar fixo quando canta e faz dancinhas que só seriam consideradas danças no mundo de bill callahan. mas ele sabe o que está fazendo. bill sabe que é O CARA. não à toa em algumas músicas ele até se ajoelha enquanto toca guitarra. tipo elvis. talvez por isso ele só precise de um baterista para acompanhá-lo. e olha que nem precisava. só a voz e a guitarra já seriam eficientes o bastante.

sempre compenetrado, ele veste a camisa por dentro da calça com a manga dobrada até os cotovelos, calça jeans e bota de caubói. quase jeca. fico imaginando se ele teve a intenção de se enturmar com os pobres mortais da roça que nunca têm uma oportunidade como essa de apreciar um bom show internacional. o fato é que bill até pode ser jeca se ele quiser. um cara que já namorou a cat power (e olha que eu já vi ela dizer em entrevistas que bill foi um dos seus maiores amores e, dizem, um dos motivos de ela ter enfiados os dois pés na jaca depois que o relacionamento acabou resultando em drogas, rehab, etc, etc, etc) e faz músicas como “bathysphere” merece respeito. ou, no mínimo, inveja.

o show aliás teve todos os “hits” (se é que pode-se dizer que ele tem algum hit): “rock bottom riser”, “cold blooded old times”, “diamond dancer”, “like the mother of the world”, a já citada “bathysphere” (no bis), e várias outras canções. uma mais bonita que a outra.

é difícil explicar como músicas extremamente tristes conseguem trazer alegria a quem as ouve. as de bill callahan são tipo gelo-seco. é gelo, mas queima.

“cold blooded old times”

“rock bottom riser”



2 Responses to “a sangue frio”

  1. 1 Fernando

    Ver os vídeos dá até agonia por não ter ido. Uma pena que não tenha vindo em BH. É mesmo incrível como o cara consegue não decepcionar resolvendo tudo só com voz, guitarra e bateria, o que aliás parece não ser o que ele vinha fazendo em shows recentes na Europa. O formato pocket show deve ter sido mesmo por razões econômicas. O cara odeia entrevistas mas alguém sabe se ele deu alguma entrevista no Brasil que não seja esta esta (http://www.screamyell.com.br/musicadois/bill_callahan.htm) de janeiro pro Scream & Yell?

  2. 2 Cadu

    fernando, valeu pelo link dessa entrevista para o scream & yell. não tinha visto ainda.
    minha parte preferida: “Em fevereiro e março saio em turnê pelos Estados Unidos e também estou pensando em comprar um cachorro. De preferência um que possa lavar a louça”. djênio.

    esse lance vir para o brasil só com o baterista acho que não tem muito a ver com o lado econômico não. já vi o bill dizendo em entrevista que ele gosta de variar. se vc procurar no youtube dá pra perceber que os shows dele no comecinho do ano são mais ac’usticos, já há uns dois meses atrás parece que ele tava tocando com banda grande com direito a violino e tudo.

    cara, você vai se morder de raiva mas acho q esse show dele em ribeirão preto foi marcado de última hora, não era pra ter acontecido. li em algum lugar que ia ser ou em porto alegre ou em… BELO HORIZONTE!!!! sabe-se lá o porque de terem desmarcado. sorte a minha. ahaha.

    de entrevista para o brasil só achei essa:
    http://donttouchmymoleskine.wordpress.com/2008/09/10/entrevista-bill-callahan/

    aqui tem uma que ele deu para um site português que é bem legal tbm. aliás se vc clicar em “entrevistas” no alto da pagina dá pra ler outras bem legais com vários outros artistas.

    segue o link:
    http://www.mondobizarre.com/e_smog.html

    abraço.


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