discoteca: “volume one”, she & him

26jul08

o que leva músicos a se arriscarem em outros campos da arte que não a música? seria uma forma de se livrar de um certo excesso de criatividade? exibicionismo? farra? ou seria apenas pelo dinheiro mesmo? são vários os exemplos de artistas que já tentaram mostrar seus dotes artísticos na tela grande (david bowie, tom waits… hããã… bon jovi), na literatura (bob dylan já escreveu vários livros, inclusive o primeiro volume de sua autobiografia) ou até nas artes plásticas (john lennon, dylan mais uma vez) e fotografia (lou reed, patti smith). 

mas e o caminho inverso? e quando artistas de outras áreas tentam ingressar na música? bruce willis, keanu reeves e johnny depp têm ou já tiveram bandas. depp, inclusive já tocou guitarra em disco do oasis. woody allen, faz turnês todo ano com sua (elogiada) banda de jazz. no entanto, uma coisa me deixa encucado: músico fazendo o papel de músico (no cinema ou na tv) poderia ser considerado “atuação”? pois, no fim das contas, ele apenas está exercendo sua profissão “titular”, certo? uma atriz seria capaz de gravar um disco interpretando uma cantora?

recentemente, a musa scarlett johansson (atriz mediana, vai) gravou um disco “interpretando” músicas de tom waits. talvez a palavra interpretar realmente caiba para descrever o “talento vocal” da moça pois, ao que parece, o disco é ruim que dói.

zooey deschanel é mais uma atriz que resolveu se aventurar no mundo da música. filha de mary jo (também atriz) e caleb deschanel (diretor de fotografia requisitado em hollywood) e irmã mais nova de emily deschanel (a dra. brennan do seriado “bones”) ela não é tão conhecida do grande público mesmo já tendo um certo currículo na indústria cinematográfica fazendo, quase sempre, papéis secundários. para quem não lembra da moça nas telas, ela fez o papel da irmã do rapazinho aspirante a jornalista no filme “quase famosos” e ultimamente pôde ser vista em “o assassinato de jesse james” e ao lado de mark whalberg no mais recente filme do shyamalan.

“volume one” está longe de ser um disco de vaidade da atriz. na verdade, é quase um atestado da moça. é um tributo à música dos anos 60, às divas do pop e do jazz, às belas melodias, ao estilo phil spector de grandes orquestrações e ao apuro nos arranjos. trata-se de um disco nostálgico sim, mas no bom sentido. o álbum parece ser o elo que deveria ter ligado a música country à modernidade nos anos 90. pode ser interpretado como uma resposta aos adoradores de country music que estavam carentes de bons discos no estilo. ao invés de enveredar para a insossa shania twain e para o medonho garth brooks, era para a sutileza do she & him que a música country deveria ter rumado do fim dos anos 80 pra cá. se a banda e mais alguns artistas como ryan adams e jenny lewis tivessem aparecido um pouco mais cedo, talvez, muita coisa da horrível música sertaneja “universitária” que domina as fms brasileiras não existisse hoje em dia.

o she & him é o nome do projeto de zooey com o músico m. ward. eles se conheceram nos bastidores de um filme que zooey atuava e ward era o encarregado pela trilha sonora. a afinidade entre os dois foi tamanha que a moça resolveu mostrar suas canções (que ela vinha compondo desde os oito anos de idade) ao músico que adorou o trabalho e se ofereceu para produzir um disco. daí surgiu o álbum “volume one”.

é interessante notar aqui que zooey endereça praticamente todas as canções a um “him” anônimo, imaginário ou não. a começar pelo nome da banda grafado propositalmente de forma errada. em inglês, o certo seria ou “she & he” ou “her & him”. o “him” no nome da banda, poderia ser associado ao próprio m. ward. no entanto, quando o pronome é utilizado nas letras das canções, estaria se referindo a algum(s) (ex)namorado ou amante de zooey. poderia ser eu, poderia ser você. a opção por “she & him” também soa como uma fuga proposital de zooey já que, desta forma, ela evita a associação de sua carreira musical com sua trajetória no cinema. neste caso, o que ela quer dizer importa muito mais do que quem ela é.

zooey segue a nobre “linhagem cat power” de divas modernas. além de possuir uma bela voz, ainda é um colírio para os olhos. gatinha, saca? coisa fina. ela inclusive já está sendo considerada por revistas de moda como uma das mulheres mais fashion do showbizz em 2008. zooey é tendência.

o disco passeia por vários estilos desde jazz, do whoop, passando pelos roquinhos-chiclete dos anos 60 e até música havaiana mas todas essas vertentes desaguam mesmo é no pop. a produção de m.ward prima por arranjos singelos e discretos sempre na intenção de dar maior destaque a voz de zooey. ward, ao contrário de sua carreira solo, não canta sequer uma música no disco. todos os seus vocais aparecem ao fundo fazendo a cama para a protagonista.

“sentimental heart”, a canção abre-alas, é um lamento sobre apostar todas as cartas em uma pessoa mesmo sabendo que ela não dará valor algum a isso. já “why do you let me stay here?”, a mais pop/rock do álbum e primeiro single, brinca (de forma sarcástica) com o fato de duas pessoas se gostarem mas ninguém ter coragem de tomar iniciativa: “por que você me deixa aqui sozinha?/ por que você não chega junto?/ já estou ficando pra titia”, canta zooey com uma candura irresistível.

“this is not a test” tem belo jogo de vozes que lembra beatles e as girl groups dos anos 60 com direito a solo de trompete feito com a boca. “change is hard” é de partir o coração de tão linda. aqui o fator “him” está mais forte que nunca.

“i thought i saw your face today” e “black hole” são belos exemplos de que a moça tem o dom de fazer boas letras. “estou sozinha numa bicicleta de dois assentos”, canta ela tristinha em “black hole”. é de se ajoelhar e pedir pra casar.

o disco ainda tráz três covers. “you really got a hold on me” de smokey robinson,  “i should have known better”, dos beatles, em clima havaiano e “swing low, sweet chariot”, clássico do gospel americano. já “sweet darling” é uma parceria de zooey com o também ator e músico jason schwartzman (de “maria antonietta” e “viajem a darjeling”).

“volume one” é daqueles discos que não vão mudar a sua vida mas são ótimos para esses dias de inverno. e é uma rara exceção provando que atores também podem ser bons músicos. que venha o “volume two”.

abaixo uma versão incrível da zooey tocando “dream a little dream of me”, standard do jazz americano. linda.

e a linda “change is hard”, uma das mais bonitas do disco.



2 Responses to “discoteca: “volume one”, she & him”

  1. 1 rodrigo

    bicho, seguinte:

    a moça é uma tetéia. mas isso todo mundo repara fácil. agora… eu nunca pensei que eu fosse curtir essas musiquinhas mela-cueca, folk, descompromissada.

    mas “volume one” é cheio daquelas musiquinhas que pegam e ainda dá a impressão de que zooey deschanel não tá levando isso tudo muito a sério, como se ela estivesse cantando no chuveiro.

    o melhor disco que eu ouvi em 2008. por enquanto, pelo menos.


  1. 1 as mais gatas de 2008 « let it blog

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