discoteca: “jim” – jamie lidell

27jun08

lendo algumas críticas de “jim” pela internet e vendo a reação de algumas pessoas a respeito do trabalho de jamie lidell uma coisa me chamou bastante a atenção: muita gente anda falando mal do cara pelo simples fato de ele ser branco, inglês e cantar soul music. o argumento é que trata-se apenas de mais um branquelo querendo emular o “som dos negros”, enfim querendo ser o que não é. se bem me lembro, esse pensamento mesquinho (para não dizer racista), é o mesmo argumento que alguns puristas usa(va)m para criticar a obra de elvis presley. tudo bem, elvis, de certa forma, foi sim usado para fazer o público acreditar que o rock praticamente fora inventado por brancos e que ele era o rei da história toda enquanto chuck berry, little richard e cia eram deixados no limbo pelos “brancos usurpadores”.

essa história de “rock de branco”, “música negra”, “música de bandido” etc, nada mais é do que segmentação da indústria com a única e exclusiva intenção de obter aquilo a que ela, em sua essência, se preza a fazer: dinheiro. ou vai dizer que em 1956 uma pessoa ao ouvir a voz de elvis no rádio, sem nunca ter visto uma foto sequer do cantor, saberia dizer que se tratava de um branquelo de olhos azuis? música é música, ponto.

dito isto, as críticas infundadas a respeito de jamie lidell caem por terra. o fato é que (sabe-se lá qual a razão) os negros têm uma certa habilidade em lidar com ritmos mais suingados. há um certo feeling inerente a essas pessoas. é a mesma questão do futebol brasileiro. por que é tão bom? por que os gringos não conseguem fazer a mesma coisa? seria o arroz-com-feijão? o samba? ou o fato de os melhores jogadores brasileiros serem pobres e desde cedo estarem acostumados a driblar em meio a ruas esburacadas, campos de terra e bolas de meia? vai saber. no entanto, nada impede de, vez ou outra, surgirem maradonas, beckenbauers, jamies lidell.

aos 34 anos, “jim” é o terceiro disco lançado por lidell. o segundo, “multiply” , de 2005 já havia causado certo alvoroço no meio eletrônico por misturar… dããã… música eletrônica e soul music resultando num disco experimental. quase cabeçudo. nessa época, para se ter noção, o show do cara consistia em apenas lidell e um laptop no palco. ali ele fazia todas as bases e mudava tudo a cada apresentação.

em “jim”, lidell resolveu subverter o seu método de trabalho e gravou tudo de forma analógica deixando as eletronices de lado para fazer um som mais orgânico. para isso, resolveu mergulhar de vez na soul music. uma definição que eu li e achei interessante para definir o som do cara é: otis redding+stevie wonder+monty python. este último, principalmente pelo fato de o cara ser uma figuraça em entrevistas e momentos offstage.

a essa mistura poderiam ser adicionados ainda prince, beck e marvin gaye, sem falar nas pequenas homenagens a diversos artistas. “out of my system”, por exemplo, é puro stevie wonder com seu refrão chupado de “superstition” mas os “uhuhuhu’s” e a batucada final da canção fazem referência a “sympathy for the devil” dos rolling stones.

já os primeiros 10 segundos e o dedilhado de violão de “all i wanna do”  parecem anunciar a voz doce e grave com sotaque germânico de nico na clássica “femme fatale” do velvet underground mas ao invés disso entra a voz de veludo de lidell bem ao estilo marvin gaye.  a letra da canção é a tentativa do cantor de não deixar um relacionamento se acabar pois sempre é possível melhorar o que está ruim. as palavras milimétricamente pronunciadas e encaixadas na melodia deixariam qualquer morrissey ou michael stipe orgulhoso.

a exemplo de “another day”, a canção que abre o disco, “wait for me” bota o astral lá no alto com uma base de piano inspirada que atinge o ápice no solo quase no final da música. “a little bit of feel good”, uma das melhores do disco, versa sobre como pequenas coisas podem alegrar o dia de qualquer pessoa. já o lado eletrônico de lidell aparece em “figure me out”, música que o justin timberlake daria os dois braços para ter feito. 

“hurricane” começa com uma barulheira de guitarras, depois segue numa correria ao estilo de sly & the family stone para cair num refrão esperto cujos backing vocals remetem a gnarls barkley. a referência também se dá pelo fato de a letra meio que falar sobre loucura, insanidade etc.

“green light” é baladinha. “where d’you go” é música para bater palminha e suar na pista. quase um rockinho. já “rope of sand” é toda tristinha e a mais otis redding de todas.

enfim, o disco poderia muito bem ter sido lançado em 1973 que ninguém notaria a diferença já que mergulha de cabeça no que de melhor já foi produzido na soul music. como se diz, o disco é “roots”. e está no meu top 5 de melhores do ano. e digo mais: a cada audição parece ir ganhando cada vez mais pontos rumo ao topo da lista.

assim como mark ronson, amy winehouse e todos os artistas do gênero que vêm pipocando por aí, o papel de lidell parece ser muito mais mostrar a uma nova geração de ouvintes que a música grooveada já era feita muito tempo antes de branquelos como os do franz ferdinand surgirem do que propriamente reinventar o gênero.

músicas feel good. canções de comercial de margarina. cambalhotas. domingos ensolarados. sorvete no parque. o clima de “jim” remete a tudo isso e nessas horas o fato de jamie lidell ser branquelo e o disco não adicionar quase nada de novo à soul music, pouco importam. ou melhor, nada importam. o próprio cantor diz que é melhor não se levar tão a sério e apenas aproveitar o momento. se divertir. parafraseando “out of my system”: “Just sit back and enjoy the show/ But before it’s all over and done, I’m about to have me some fun yeah”. falou e disse.

abaixo, “another day”, a melhor do disco e candidata a melhor do ano.



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