Quer pagar quanto?

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Essa é a pergunta que o Radiohead lançou aos ouvidos do mundo no último dia 1º de outubro ao anunciar que, após quatro anos de looonga espera, o novo álbum estava pronto e se chamaria “In Rainbows”. Como se isso não fosse o bastante para chacoalhar o mundo pop, disseram que o disco começaria a ser vendido dentro de um período de dez dias apenas através do site oficial do álbum. Ou seja, não estaria em nenhuma loja. Não existiria fisicamente.

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Até aí tudo bem, um monte de bandas lança discos apenas pela internet hoje em dia. A grande sacada do Radiohead foi que durante o processo de aquisição do “disco”, quando o “cliente” chegava na parte que mostrava o preço a ser pago pela obra havia uma lacuna e um ponto de interrogação que mostrava a seguinte mensagem ao passar do mouse: “It’s up to You”. Traduzindo: “você é quem sabe”. Você escolhe quanto pagar. SE quiser pagar, é claro. 

Para adquirir o álbum (logo depois foi anunciado que o disco físico também será lançado) a pessoa deve entrar no já citado site e escolher entre duas opções. A primeira delas é um box com as 10 faixas do álbum em cd, mais um vinil duplo com mais sete faixas adicionais, sem falar no encarte com letras, arte e fotos. Tudo isso pela bagatela de 40 libras (R$150) que seriam entregues a partir do dia 03/12 em qualquer país do mundo com taxas de exportação já inclusas. A segunda alternativa seria o download simples do disco com a opção de se escolher o preço a ser pago. Feito o cadastro no site a pessoa receberia um e-mail com o link para o download do álbum.

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O alvoroço causado pelo anúncio foi gigantesco com vários especialistas dizendo que, com esta atitude, a banda muda os conceitos sobre o ato de se comercializar a música e a arte de uma forma geral. Disseram que esta foi a última pá de cal jogada em cima da obtusa indústria fonográfica como a conhecemos. Para não perder a oportunidade, o semanário New Musical Express estampou Thom Yorke na capa desta semana e apontou a nova revolução. O estrago foi feito.

Porém, é necessário que se ponha os pingos nos devidos is. Particularmente, acho que Thom Yorke e sua trupe não mudaram em nada o modo como a música vem sendo tratada nos últimos tempos. Apenas souberam botar o jogo a seu favor e evidenciar o que já era evidente. Todo o blablablá feito pela imprensa já vinha sendo especulado desde que o contrato do Radiohead com a EMI/Parlophone terminou em 2005 e  o mesmo aconteceu com artistas de peso como Oasis e Prince, por exemplo. Ou seja, foi uma morte anunciada. 

Vários outros artistas criaram modos de fazer com que sua música continue sendo vendida apesar da crise do cd. A banda curitibana Terminal Guadalupe e o White Stripes optaram por lançar seus discos em pen drives. As gravadoras parecem não ser o problema dos artistas hoje em dia. O grande entrave, principalmente na cena independente, é como distribuir os discos. Paul McCartney e Bob Dylan, por exemplo, fecharam contrato com a rede de cafeterias Starbucks para vender seus álbuns mais recentes. Parece plausível tendo em vista que nos EUA existe uma Starbucks em cada esquina. Já Prince lançou seu último disco “Planet Earth” encartado no jornal britânico “The Mail on Sunday”.  Resultado: o jornal teve tiragem de 3 milhões de exemplares e Prince esgotou todas as entradas para sua turnê de 21 shows em Londres em julho passado.

A estratégia do Radiohead nada mais é do que tentar jogar o problema para… VOCÊ. A idéia é simples: “ok você é fã da nossa banda, pode pagar o quanto quiser pelo nosso disco, pode até não pagar se assim preferir. Mas hey… você é nosso fã, então por que deixaria de apoiar a gente para baixar o disco de graça se igualando, desta forma, àqueles que pirateiam nossos discos? Você não sente remorso?”. Arrisco dizer que a banda joga com a mesma política do medo adotada por Mr. Bush. Calma xiitas de plantão, não me atirem pedras! Sou um grande fã do Radiohead, mas é inegável o que eles estão fazendo. Só não vê quem não quer.

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Esta é a jogada de marketing perfeita. Pensa: se a estratégia der certo e pelo menos 700 mil pessoas resolverem comprar  o box de R$150 a banda vai arrecadar a bolada de R$10 milhões. Isso sem dar um tostão a gravadora alguma. E no fim das contas a banda ainda sai com a imagem impecável como os revolucionários da parada toda. A expectativa é que sejam feitas, no mínimo, 3 milhões de downloads do disco através do site.

A título de curiosidade baixei o disco sem pagar nada, só para ver se era possível mesmo. Deu tudo certo e em cerca de 40 minutos já estava escutando ele bonitinho. Mas há sempre um porém. A qualidade do som não é lá essas coisas, afinal um cd é infinitamente melhor que um arquivo mp3. Disto isto, eu pergunto: vale a pena pagar por um disco cuja qualidade do áudio é inferior ao original que ainda vem com encarte, fotos e o escambau? Será que se eu não estiver satisfeito o Thom Yorke devolve o meu dinheiro? Pense nisto. 



2 Responses to “Quer pagar quanto?”


  1. 1 I’m a creep « Let It Blog
  2. 2 ah, laura… « let it blog

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